Thursday, March 01, 2007

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo segundo capítulo




Décimo oitavo dia (09/01/01 – terça) – Laboulaye a Vicuña Mackenna

Distância pedalada no dia: 101,97 km.
Distância total acumulada: 1976,06 km.
Tempo pedalado: 4 h 05 min 48 s.
Velocidade média: 24,9 km/h.
Velocidade máxima: 38,0 km/h.

Acampados ao lado de um posto de gasolina, desde o raiar do dia percebemos que o tempo seria chuvoso. Antecipando-nos à chuva, recolhemos todo o material antes de sentirmos os primeiros pingos gelados. Debaixo de um telhado arrumamos o equipamento, ensacando tudo o que não poderia molhar. Enquanto tomávamos café, um raio caiu nas proximidades com um forte estrondo.
Na minha opinião, foi o pior momento em toda a viagem. Pedalar debaixo de chuva e com raios caindo bem próximos é um teste para o sistema nervoso. Para piorar um pouco mais o clima, tive um raio da roda traseira quebrada, o que diminuía sensivelmente o desempenho da bicicleta.
Quando a chuva começou a se dissipar estávamos nas proximidades de General Lavalle. Paramos para almoçar e aproveitei a oportunidade para trocar o raio quebrado. Tive uma surpresa desagradável ao perceber que os raios de reserva que levava não tinham as mesmas dimensões daqueles que estavam nas rodas. Obra de uma oficina de bicicletas bem conhecida em Caxias do Sul, onde dois irmãos se revezam no atendimento. A falta de seriedade na prestação do serviço me obrigou a seguir com uma roda torta em plena viagem no centro da Argentina. O temporal voltou a se formar no horizonte, mas não nos atingiu antes de chegarmos ao nosso objetivo naquele dia, a cidade de Vicuña Mackenna. Fomos a uma oficina de bicicletas, consegui arrumar a roda e comprar raios de reserva – estes sim, de tamanho adequado. Os de Caxias do Sul foram para o lixo.
Aproveitamos a visita à cidade para tomarmos sorvete e, enquanto a chuva dava uma trégua, iniciamos a montagem do acampamento nas proximidades de um posto de gasolina. No horizonte percebemos uma mancha branca se destacando sobre um fundo azul escuro. Logo sentimos a força do temporal, carregado de granizo. Uma enorme pedra de gelo – como nunca havíamos visto, do tamanho de uma bola de tênis – caiu ao lado do acampamento. Passado o temporal, tomamos chimarrão e tratamos de preparar a janta. Uma chuva fraca chegou para ficar e o que nos restou foi o conforto do saco de dormir, esperando que no dia seguinte o tempo melhorasse.

Décimo nono dia (10/01/01 – quarta) – Vicuña Mackenna a Villa Mercedes

Distância pedalada no dia: 118,28 km.
Distância total acumulada: 2094,34 km.
Tempo pedalado: 5 h 45 min 35 s.
Velocidade média: 20,5 km/h.
Velocidade máxima: 34,5 km/h.

Pela manhã o tempo parecia bom, um pouco frio mas com vento contrário. Egon percebeu um raio quebrado e voltamos à oficina de bicicletas da véspera para trocá-lo. Seguindo viagem, enfrentamos um forte vento contrário andando em grupo, desta vez liderado por Fabrice. Durante a pedalada percebemos que estávamos continuamente subindo, pois Fabrice possuía altímetro na bicicleta e confirmou que, nos últimos dois dias, subíramos duzentos e cinqüenta metros. Jacson voltou a pedalar sozinho e ficou para trás, o que nos obrigou a parar para esperá-lo. Egon estava preocupado com a demora, pois algum problema mecânico poderia ter ocorrido. Depois de algum tempo, porém, chegava nosso colega, no mesmo ritmo de sempre. Na cidade seguinte – Justo Daract – paramos para tomar suco e aproveitamos para perguntar o que era uma forte nebulosidade que percebíamos ao longe. Alguns caminhoneiros disseram que se tratava de uma nova tormenta se formando. Ficamos intrigados, pois parecia uma cortina de fumaça. Na realidade nunca saberíamos, pois a tal tormenta não chegou e no dia seguinte a névoa havia desaparecido.
Acampamos em Villa Mercedes. Estávamos bem no centro do mapa do Cone Sul, todos estavam bem, contentes por ter chegado lá com a força das próprias pernas. Mas na Argentina que já havíamos conhecido as pessoas estavam sofrendo com a fúria das tormentas: na grande Buenos Aires, destruição, mortos e feridos.

Vigésimo dia (11/01/01 – quinta) – Villa Mercedes a San Luís

Distância pedalada no dia: 111,13 km.
Distância total acumulada: 2205,48 km.
Tempo pedalado: 5 h 51 min 24 s.
Velocidade média: 19,0 km/h.
Velocidade máxima: 48,0 km/h.

Acordamos com a temperatura bem mais baixa do que na véspera. No diário de viagem encontramos o registro da pedalada:
No início da pedalada tentamos andar em grupo, mas não funcionou. A velocidade era muito baixa, nem chegávamos a vinte por hora. O movimento estava bastante grande e os caminhões ultrapassando ou se cruzando não eram nada agradáveis. Várias vezes tínhamos que sair da pista, já que não havia acostamento para transitar.
Subimos praticamente todo o dia até chegarmos em um local chamado La Cumbre, onde paramos para almoçar. Tomamos um monte de suco e comemos uns sanduíches imensos. Depois do almoço estava bastante quente ao sol, apesar do vento um pouco fresco. Decidimos esperar e descansar, como os argentinos, fazendo uma “siesta”.
Por volta das três horas da tarde seguimos viagem, percebendo as primeiras elevações ao longe. Pedalamos lomba abaixo e paramos em frente a um monumento saudando quem chega a San Luís. Seguimos até um posto YPF, mas não pudemos ficar por lá, pois o chefe do posto havia decidido não mais se responsabilizar pelo que pudesse acontecer com quem pernoitasse por lá. O perigo de roubos era grande.
Um espinho furou o pneu dianteiro da minha bicicleta quando entrávamos em San Luís. Encontramos uma oficina de bicicletas onde foram feitos alguns reparos nas bicicletas. Circulando um pouco pelo centro da cidade, conhecemos a praça central e a igreja, aproveitamos a oportunidade para tomarmos um sorvete e saímos à procura de um local para pernoitar. Nos postos de gasolina não havia lugar – por estarmos dentro da cidade, nem área verde tinham – e na polícia descobrimos que não poderiam autorizar (nem proibir) o acampamento em qualquer lugar. Resumindo, lavavam as mãos. Sem perspectivas de encontrar um local para ficarmos, fizemos compras em um supermercado e saímos em desabalada carreira pela estrada – afinal, estava anoitecendo.
Pedalando noite adentro, fomos nos afastando da cidade, em busca de local para as barracas. Ao lado da estrada avistamos uma pequena casa. Pedimos permissão e acampamos em frente à cerca da propriedade, esperando que ninguém resolvesse levar nossas coisas durante a noite. Após a janta coletiva na barraca-refeitório de Jacson, caímos em sono profundo.

Vigésimo primeiro dia (12/01/01 – sexta) – San Luís a La Dormida

Distância pedalada no dia: 147,87 km.
Distância total acumulada: 2353,36 km.
Tempo pedalado: 6 h 00 min 48 s.
Velocidade média: 24,6 km/h.
Velocidade máxima: 37,5 km/h.

Assim como durante a noite, de manhã ventava bastante. Após o café desmontamos acampamento e seguimos viagem. O forte vento lateral ora ajudava, ora atrapalhava o andamento das bicicletas. Pedalamos por uma incrível reta com 40 quilômetros de extensão!
O relevo e a vegetação começavam a mudar, pois pedalávamos por baixadas e elevações mais pronunciadas e nas laterais da estrada só havia árvores espinhentas. Algumas paisagens lembravam os filmes de velho oeste americanos. Entre os poucos pontos de referência deste trajeto encontramos o rio Desaguadero, onde paramos para tomar suco e descansar. Nesse local havia um posto de controle de fronteira entre as províncias de San Luís e de Mendoza, onde acabávamos de entrar. Finalmente chegávamos às terras próximas da Cordilheira dos Andes: Mendoza, terra do sol e do bom vinho!!!

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo primeiro capítulo




Décimo sexto dia (07/01/01 – domingo) – Chacabuco ao acesso a Diego de Alvear

Distância pedalada no dia: 154,04 km.
Distância total acumulada: 1728,28 km.
Tempo pedalado: 5 h 59 min 57 s.
Velocidade média: 25,7 km/h.
Velocidade máxima: 40,0 km/h.

Na fazenda onde estávamos acampados, nas proximidades de Chacabuco, informaram-nos que a aproximadamente vinte quilômetros dali encontraríamos a próxima Estación de Servicio. Lá poderíamos tomar o nosso café da manhã. Saindo relativamente cedo e com tempo nublado, esperávamos pedalar rapidamente para amainarmos a fome que já se fazia sentir depois da janta da véspera, quando havíamos comido praticamente apenas “siruelas” (ameixas).
No início do dia tomei a dianteira do grupo. Pedalando em ritmo forte, rapidamente havia percorrido 25 km e nada de encontrar a tal estación... Aliás, nada além de campo aberto e alguns capões de mato. Algumas placas anunciavam um Posto YPF, mas a placa que indicava a distância estava encoberta por outra. À medida que avançava, pude perceber o número 2. Pronto – pensei –, só falta estar indicando mais 20 km! Mas era mesmo somente um 2 e logo em seguida eu entrava em um dos postos de gasolina melhor equipados que já encontrei. Grande, limpo, extremamente bem organizado. Uma área de recreação para crianças, banheiros absolutamente impecáveis, um restaurante com tudo o que se poderia imaginar para tomar um belo café da manhã. Nas paredes – inacreditável! – carregadores de baterias de celular esperavam pelos clientes que necessitassem dessa comodidade! Tratei de me lavar para poder entrar (sem afugentar os atendentes) e fui consultar o cardápio. Como havia imposto um ritmo muito forte, teria bastante tempo de espera pelo meu pai e por Jacson, então decidi pedir café com leite e uma pizza. Quando meu pai chegou a pizza de calabresa estava no ponto, pronta para ser devorada. Nunca imagináramos um desjejum tão bom, no meio do nada!
O dia nublado e com uma brisa favorável estava perfeito para pedalarmos. Seguimos juntos em bom ritmo até a entrada da cidade de Junín, onde um ciclista de estrada argentino parou para conversar conosco. Enquanto estávamos parados Egon resolveu comprar bananas e pedalou algumas quadras em direção ao centro da cidade. Nesse momento vimos aparecer, vindo da mesma estrada que seguíamos, um outro ciclista, todo equipado com bagagens. Trocamos as primeiras palavras em inglês e ficamos sabendo que seu nome era Fabrice, era francês e que estava dando a volta ao mundo de bicicleta!!! Convidei-o para encontrarmos meu pai e comermos algumas bananas e lá fomos nós.
Fabrice havia partido de Villepinte, em Paris – França, no dia 10 de setembro de 2000. Passara por Málaga (Espanha), Rabat (Marrocos), Laayoune (Sahara Ocidental), Nouakchott (Mauritânia), Dakar (Senegal) e, após ter tomado um avião da Europa, chegara a Buenos Aires, na Argentina. Seguia de lá para Santiago, no Chile, passando pelas mesmas estradas que nós. Nota: nesse momento, em julho de 2001, já passou pelos seguintes locais (depois de Santiago) em sua volta ao mundo: Wuhan (China), Hanói (Vietnã), Thakeh (Laos), Bangkok (Tailândia), Tashkent (Uzbequistão) e Mashad (Irã). No último contato que mantivemos Fabrice rumava para a Turquia e de lá entraria na Europa, voltando para casa. O endereço eletrônico dessa interessante viagem é tdmfabrice.free.fr
Agora com o grupo formado por quatro ciclistas, seguimos viagem e passamos por Vedia com um tempo excelente, vento pelas costas e velocidade sempre próxima dos 30 quilômetros horários. Durante a pedalada podíamos trocar algumas idéias em inglês ou alemão e conhecer um pouco do mundo visto por Fabrice.
No final da tarde chegamos em um posto de gasolina YPF e, alguns metros adiante, a estrada estava interrompida. Conversando com uma pessoa responsável pela orientação aos motoristas, ficamos sabendo que uma laguna (chamada Laguna Picasa) havia transbordado, inundando a pista e arrancando partes da estrada que formava a Ruta 7. A situação já ocorria há dois anos e provavelmente seria definitiva, pois o aumento do nível das águas se devia ao grande volume de água despejado na região por canais de irrigação. Existiam duas possibilidades: um desvio de 35 quilômetros por estrada de chão e trechos dentro d’água ou um caminho alternativo por estrada asfaltada que aumentaria em 200 quilômetros nosso percurso. Optamos por retornar às proximidades do posto de gasolina, montar acampamento e decidir com calma por onde seguir tomando a sopa do jantar.

Décimo sétimo dia (08/01/01 – segunda) – Acesso a Diego de Alvear a Laboulaye

Distância pedalada no dia: 145,79 km.
Distância total acumulada: 1874,08 km.
Tempo pedalado: 6 h 28 min 14 s.
Velocidade média: 22,6 km/h.
Velocidade máxima: 40,0 km/h.

Acordamos, tomamos café e tratamos de ensacar todo o material, pois decidíramos enfrentar o desvio de 35 quilômetros por estrada de chão e trechos alagados pelo transbordamento da Laguna Picasa. Saímos pedalando e passamos pelo setor responsável pelas informações aos motoristas (que eram recomendados a fazer 200 quilômetros por estradas asfaltadas para desviar da área interrompida), seguindo por mais dez quilômetros de asfalto até encontrarmos a sinalização do desvio. A estrada de chão batido era recoberta por pedras e foi piorando à medida em que avançávamos. Pensei que os finos pneus da minha bicicleta, projetados para rodar somente por asfalto, não fossem agüentar a bicicleta carregada. Foi um duro teste, registrado no diário de viagem:
Passamos por várias áreas alagadas onde Fabrice filmava e em uma delas coloquei a filmadora dele no tripé para filmá-lo passando. Segundo ele, parecia um barco. Era meio estranho pedalar sem saber como estaria o chão um metro à frente.
Quando estávamos aproximadamente na metade do desvio, um forte temporal com descargas elétricas e chuva se abateu sobre nós. Naquela região alagadiça estávamos sem qualquer proteção, expostos à fúria dos elementos da natureza. Entrei na primeira porteira que encontrei, mesmo sob protesto dos demais companheiros de viagem, que queriam prosseguir. Chegando na sede da fazenda Recuerdo, ficamos sob o abrigo de um telhado até que o proprietário chegou para saber o que se passava, de onde vínhamos e para onde íamos, enfim, os questionamentos aos quais já estávamos habituados. O senhor com quem conversávamos afirmou que um raio já havia atingido a antena de seu rádio e queimado vários aparelhos em sua propriedade, de modo que ele igualmente não se sentia muito bem com as tempestades. A chuva e o vento continuaram a aumentar de intensidade e a varanda onde estávamos começou a molhar, de modo que fomos convidados a ir a um galpão mais amplo, que abrigava máquinas e o carro de um empregado. Aproveitando o tempo para conversar, ficamos sabendo que o salário mínimo na Argentina estava cotado em aproximadamente 400 pesos (dólares) e que os funcionários da fazenda recebiam 600 dólares, assistência médica e plano de saúde. Um professor em início de carreira, na Argentina, recebia em torno de 800 dólares se trabalhasse em uma região de difícil acesso (como aquela, por exemplo). Foi mais um momento em que nos perguntamos: o que está acontecendo em nosso país, tão rico e tão imenso?
O temporal começou a passar e, agradecendo pela acolhida, seguimos viagem. Passamos por várias áreas alagadas e pela Laguna Picasa, onde vimos um bando de flamingos ao longe e paramos para uma fotografia. Em alguns lugares estávamos rodeados de água, como se estivéssemos em um arquipélago. A chuva insistente nos obrigou a voltar a pedalar, pois o local não oferecia nenhum tipo de abrigo. Alguns quilômetros mais tarde encontramos novamente a Ruta 7 e o asfalto. Sobrevivemos ao desvio sem qualquer problema mecânico, apesar das condições precárias e das grandes áreas alagadas do desvio. A travessia do trecho alagado pode ser vista na página de Fabrice na internet (endereço já mencionado).
Pedalamos rapidamente pelo asfalto e, ajudados pelo vento, seguimos com velocidade sempre acima de 30 quilômetros por hora pela imensa planície rumo a Rufino, onde paramos em um posto de gasolina para um lanche. Decidimos percorrer mais 65 quilômetros até Laboulaye, onde paramos em um excelente posto da YPF. Acampamos em um bom local, tomamos banho quente e pudemos jantar milanesa con papas fritas e tomar chimarrão, com direito a um helado de sobremesa! Fomos dormir sem imaginar o grande temporal que nos aguardava...

Thursday, February 15, 2007

Canoagem em Rondinha




O final-de-semana de 10 e 11 de fevereiro de 2007 seria de velejada na Lagoa Itapeva mas, apesar do vento sul perfeito, o que aconteceu mesmo foi uma caiacada no marzão de Rondinha.

Monday, February 12, 2007

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo capítulo


Egon, Jacson e eu pedalávamos sob o sol escaldante torcendo para que não demorássemos muito a chegar em Luján. A cidade surgiu devido a uma interessante história que vale a pena conhecer: em 1960, um vagão contendo uma pintura da virgem, vindo do Brasil e seguindo para uma fazenda portuguesa, não prosseguia viagem enquanto os gaúchos (daquelas paragens) não removessem a pintura. Os fiéis ergueram então uma capela onde a virgem havia “escolhido ficar”, a aproximadamente 5 km de onde está a cidade. A virgem recebeu o nome mais pomposo de La Virgen de Luján e hoje encontra-se na grandiosa Basílica de Luján, em estilo gótico francês. Todo o ano cerca de quatro milhões de peregrinos visitam Luján para homenagear a virgem por suas intercessões em questões de paz, saúde, amor e consolação. Em outubro acontece uma peregrinação desde Buenos Aires, a 62 km, uma jornada que dura cerca de 18 horas. Nos dias passados de ditadura militar, em que qualquer manifestação de massa era proibida, essa caminhada tinha uma tremenda importância simbólica, mas desde que a democracia foi restaurada no país, a procissão de fiéis tem um caráter muito mais devocional. Outra data importante em que ocorre grande afluência de devotos é oito de maio, dia da virgem.
Logo nas proximidades da cidade facilmente avistamos as torres da basílica, com 106 metros de altura, e fomos conhecê-la. Jacson preferiu ficar descansando na sombra das árvores, do lado de fora. Nas proximidades vários “camelôs espirituais” vendiam tudo o que era possível relacionar com a tal senhora que deveria mesmo ser santa pois, mesmo depois de falecida, com toda a certeza os ajudava a sobreviver! Uma placa proibia o recolhimento de esmolas, mas no interior várias caixas pediam donativos para a santa obra. A concorrência deveria ser grande! Comentários irônicos à parte, trata-se de uma igreja muito interessante, com detalhes ricamente trabalhados em seu interior. Dentro da basílica placas homenageiam as famílias que fizeram as doações (e puderam receber o status) para que a obra fosse realizada. Na saída várias crianças pediram moedas, mas não souberam se satisfazer com centavos – queriam pesos! Com a cotação de um peso para um dólar, tratamos de voltar a colocar o pé na estrada e, apesar do cansaço de Jacson, decidimos pedalar até Carmen de Areco, onde provavelmente poderíamos encontrar um camping.
A luz do sol pouco a pouco diminuía de intensidade, anunciando mais um belo final de tarde. Em um pedágio ganhamos água gelada e uma garrafa de água congelada que nos garantiu uma boa reserva para enfrentar os quilômetros que ainda faltavam. Apesar de até então não termos encontrado grandes problemas de trânsito no caminho, nesta tarde fui tirado da pista por um caminhão que era ultrapassado por outro. A estrada não tinha acostamento, mas uma grande área de escape gramada. Felizmente não encontrei nenhum buraco pela frente, que poderia ter comprometido a estrutura da bicicleta (com todo o peso das bagagens), teria provocado um belo furo nos pneus e talvez um aro entortado (o que seria realmente grave). Mas tudo correu bem, o susto passou e as belas paisagens voltaram a dominar a cena onde campos dourados concorriam com plantações de girassol.
Chegando em Carmen de Areco, parei em uma Estación de Servicio (posto de gasolina) para pedir informações sobre camping. Acabei recebendo um convite para ficarmos acampados no ACA – Automóvil Club Argentino – e utilizar suas instalações. Eu havia pedalado na frente, pois Jacson reclamara do ritmo muito forte; quando meu pai e Jacson chegaram, já tínhamos chuveiro quente à disposição. Montamos acampamento e após um merecido banho aproveitamos a comodidade que o restaurante do posto proporcionava para saborearmos um bife à milanesa com fritas. Fomos nos recolher para descansar debaixo de um belo céu estrelado.

Décimo quinto dia (06/01/01 – sábado) – Carmen de Areco a Chacabuco

Distância pedalada no dia: 79,06 km.
Distância total acumulada: 1574,23 km.
Tempo pedalado: 3 h 55 min 30 s.
Velocidade média: 20,1 km/h.
Velocidade máxima: 31,0 km/h.

Após duas semanas de estrada, nessa manhã de sábado resolvemos dormir um pouco mais e aproveitamos para tomar um bom café com leite e comer pão com manteiga e mel no posto de gasolina. Relatei no diário que as instalações dos postos de gasolina por aqui são muito boas, com tudo funcionando, em ordem e limpo. Uma beleza.
Saímos bem devagar para deixar Jacson tomar a dianteira, na esperança de que essa estratégia servisse para incentivá-lo a pedalar em um ritmo um pouco mais forte. Mas não obtivemos a resposta esperada e a velocidade foi bastante baixa, apesar do dia nublado e do vento lateral (às vezes levemente favorável). Nesse tipo de viagem o entrosamento entre os integrantes pode ser fundamental para o sucesso da empreitada; diferenças de performance muito grandes acabam por desagradar os participantes – um por se sentir incapaz de acompanhar os demais e outro por não poder pedalar em um ritmo mais forte, como gostaria. Essa questão é importante mas dificilmente pode ser avaliada durante o planejamento, antes da saída, se não forem feitos eventos preparatórios onde se possa testar a capacidade física e o entrosamento entre os potenciais participantes. Em nosso caso, havíamos pedalado somente em uma ocasião, durante a realização de um projeto Pedalando Nova Petrópolis. Felizmente não fomos seriamente afetados pela falta de entrosamento a ponto de formarmos dois grupos distintos, mas poderíamos ter conversado a respeito do desenvolvimento da pedalada muito antes de enfrentarmos problemas.
Paramos na hora do almoço em um armazém para descansarmos e tomamos leite gelado e água. Após a parada tomei novamente a dianteira até a cidade de Chacabuco, um pouco preocupado com uma grande formação de nuvens que parecia estar se transformando em um temporal. Em um posto de gasolina comprei um refrigerante e esperei pelos companheiros de viagem. Ao chegarem, ficamos novamente muito tempo parados para descansar. Combinamos que seguiríamos até a cidade de Junín ainda naquele dia.
O tempo, no entanto, nem sempre colabora conosco. As nuvens que prometiam temporal realmente se agruparam e, em pouco tempo, os primeiros raios começaram a dar sinal de que teríamos mau tempo pela frente. Encostei a bicicleta em frente a uma propriedade e comecei a ensacar o material que não estava preparado para a chuva. Um rapaz estava nas proximidades e prontamente ofereceu uma límpida e refrescante água de poço. Foi assim que travamos o primeiro contato com Éber e seu pai, proprietário da fazenda onde eram cultivados cereais e criadas algumas vacas. Junto com os primeiros pingos grossos de chuva recebemos convite para guardarmos as bicicletas em um pequeno depósito, pois havia perigo de granizo. Éber também gostava de ciclismo, mas havia parado de treinar para competições quando percebeu que só teria chances de competir com os ciclistas de ponta quando também se utilizasse de anabolizantes e outras substâncias dopantes – o que infelizmente é comum no ciclismo competitivo de alto nível. Quando a chuvarada começou fomos “invitados” a entrar na casa; prontamente aceitamos o convite para tomar um belo chimarrão. O vento aumentou bastante de intensidade e a energia elétrica foi interrompida. Conversamos bastante e pudemos concluir que a situação geral dos países da América do Sul é muito semelhante (e deprimente), embora o Chile pareça ser um caso à parte. Nessa conversa nos chamou bastante a atenção o fato de Éber e seu pai conhecerem bastante o seu país – fornecendo informações sobre o nível de desemprego, política e economia. Concluímos que na Argentina, assim como no Brasil, a “politicagem” parece ser um grande problema. Além de política, conversamos também sobre o tipo de atividade desenvolvida na região. A agricultura é predominante, juntamente com a pecuária. Eles nos surpreenderam ao comentar acerca da quantidade de chuva em milímetros, pois no Brasil sempre estávamos acostumados a ouvir que “choveu pouco” ou “choveu muito”. Quase todos os agricultores uruguaios monitoram constantemente a chuva com pluviômetros e têm noção exata da quantidade de chuva que é normal para cada período. Ao longo da conversa percebemos que o tempo se manteria em péssimas condições ainda por algumas horas, senão até o dia seguinte. O galpão onde estavam as bicicletas foi colocado à nossa disposição se quiséssemos pernoitar. Poderíamos instalar os sacos de dormir entre utensílios para a lida no campo e sacos de soja. Não precisaríamos nem montar acampamento. Foi o que fizemos.
No final da tarde a chuva deu uma trégua e aproveitamos para nos deliciar comendo doces “siruelas” (ameixas). Ganhamos um pedaço de pão com presunto que, juntamente com as siruelas, foi nossa janta. A última claridade amarelada na direção do poente ainda permitiu a atualização do diário de viagem antes de cairmos no sono. Naquele momento, jamais poderíamos imaginar que no dia seguinte encontraríamos um grande companheiro de viagem...

De bicicleta pelo Cone Sul - nono capítulo




Décimo terceiro dia (04/01/01 – quinta) – De Colonia a Buenos Aires de navio

Distância pedalada no dia, em Buenos Aires: 9,36 km.
Distância total acumulada: 1344,43 km.
Tempo pedalado: 47 min 40 s.
Velocidade média: 11,7 km/h.
Velocidade máxima: 31,5 km/h.

Confortavelmente instalados em cadeiras no deck do Eladia Isabel, víamos as luzes de Colonia del Sacramento diminuindo na distância até sumirem no imenso estuário do Rio da Prata. Cercados pelas águas, observando a esteira formada pelo deslocamento do navio, esperamos calmamente o dia amanhecer. Tínhamos bastante tempo para refletir sobre tudo o que já havíamos feito, relembrar os mais de mil e trezentos quilômetros que já havíamos percorrido somente com as forças de nossas próprias pernas, comandadas por nossa própria determinação. Seria muito mais fácil embarcar em um carro ou tomar um ônibus, poderiam afirmar alguns. A resposta seria simples, mas nenhuma palavra poderia descrevê-la melhor do que a própria realização. Conceber um projeto e torná-lo possível é uma experiência fantástica que excede muito as fronteiras de uma simples viagem. Foi assim, refletindo sobre a viagem e extasiados com a possibilidade de conhecer um novo país, que vimos um novo dia nascer sobre as águas do Rio da Prata.
Elevadores e até lojas haviam sido projetados e construídos dentro do navio. O Eladia Isabel transportava carros, caminhões e ônibus em seu compartimento-garagem inferior, enquanto os passageiros distribuíam-se em vários andares; alguns instalavam-se em poltronas ou em cadeiras, outros simplesmente escolhiam um canto e cochilavam. O deck do navio permitia a vista em várias direções e garantia uma brisa constante. À popa as margens do Uruguai há muito já haviam desaparecido quando os primeiros contornos de Buenos Aires se tornavam perceptíveis. Pouco a pouco essa imensa metrópole começava a se revelar. Uma excessiva quantidade de arranha-céus crescia diante de nossos olhos e ficamos nos perguntando como faríamos para encontrar o albergue em meio àquela floresta de edifícios, numa cidade cuja região metropolitana abriga cerca de doze milhões de pessoas.
O navio rapidamente se aproximava do porto. Passamos pelos molhes de proteção e pelo Iacht Club Argentino antes de entrarmos nas águas abrigadas da Darsena Norte onde o Eladia Isabel atracou. Um grande veleiro antigo que parecia ter saído de algum livro de histórias de piratas e corsários dividia o espaço com modernos catamarãs que fazem travessias ultra-rápidas. Ao nosso redor, imensos prédios envidraçados não deixavam dúvidas: chegávamos em Buenos Aires.
Desembarcamos com nossas bicicletas e fomos passar pela alfândega. Tudo tão rápido e fácil que estranhamos. Em pouco tempo estávamos em frente a uma grande avenida. Saquei um mapa da cidade do alforje dianteiro e tratamos de nos localizar. Precisávamos seguir até a Avenida Brasil para encontrarmos o albergue. Às vezes empurrando, às vezes pedalando, chegamos à avenida e com facilidade encontramos o Albergue da Juventude de Buenos Aires. Logo após o registro e um bom banho decidimos sair para conhecer a cidade, seguindo diretamente até a Avenida 9 de Julio e seu famoso obelisco, onde paramos para fotografias. Caminhamos em uma rua somente para pedestres e fomos visitar lojas e livrarias. Rapidamente pudemos perceber o impacto da economia dolarizada em nossos bolsos: conseguimos encontrar um local que vendia o copo grande de refrigerante a US$ 0.50, o que foi um “achado” – considerando que o preço mínimo de um simples cafezinho era US$ 1.00!
Na quente tarde de verão paramos à sombra das árvores em uma praça e, de mapa em punho, procuramos um roteiro interessante para caminharmos. Tomamos um ônibus e fomos conhecer o aeroporto, muito bonito e organizado. Consegui material informativo sobre a Argentina e um bonito mapa do país. Meu pai resolveu pedir água mineral: um garçom com toalha branca no braço trouxe uma bandeja, guardanapos, lindos copos e a água mineral para três pessoas. Jacson e eu caímos na gargalhada – era melhor rir do que chorar! – quando chegou a conta: seis dólares!!! Depois desse verdadeiro assalto resolvemos voltar ao albergue – levando os guardanapos, é claro!
O retorno de ônibus nos reservou outra surpresa: na hora de pagar a passagem, onde estava o cobrador? Em seu lugar havia uma máquina que insistia em recusar as moedas colocadas pelo meu pai. O motorista, já indignado com os “bagunceiros”, parou em uma sinaleira, levantou-se da poltrona e foi nos ensinar como se fazia. Agradecemos e tratamos de descer nas proximidades do cais do porto. Esperávamos encontrar o veleiro antigo de três mastros que estava atracado quando chegamos mas, para a nossa surpresa, já havia zarpado. Fomos barrados ao tentarmos conhecer o Iacht Club de Buenos Aires e decidimos realmente que naquela tarde tudo conspirava contra nós. Para retornar ao albergue tomamos o Subte (metrô para os portenhos), o que não foi uma experiência muito agradável. Balançando de um lado para o outro, dava a legítima impressão de um autêntico metrô do Terceiro Mundo, onde a falta de manutenção parecia ser a regra e possível causa de um desastre iminente. Chegando na estação, descemos aliviados e alegramo-nos em poder ver novamente a luz do dia.
Caminhamos algumas quadras e voltamos ao albergue. Fui a um grande supermercado onde comprei alguns alimentos para a janta e material de higiene. Jantamos após um revigorante banho (depois de um quente dia de verão) e ficamos sabendo que estava sendo organizada uma confraternização entre alguns alberguistas. Havia, na pluralidade cultural que caracteriza esse interessante ambiente, cubanos, franceses, um finlandês branco como cera, um espanhol e um chileno, além de um japonês que não parava de sorrir. Apelidamos o local de “Albergue da Família Adams” por causa de algumas figuras estranhas (que pareciam ter saído de algum filme fantasmagórico) que perambulavam por lá em escadarias de madeira que estalavam e rangiam. Preferimos dormir em vez de jantarmos novamente e avisamos a portaria do albergue que sairíamos cedo, pois no dia seguinte pretendíamos conseguir sair daquela imensa metrópole de doze milhões de habitantes.

Décimo quarto dia (05/01/01 – sexta) – Buenos Aires a Carmen de Areco

Distância pedalada no dia: 150,73 km.
Distância total acumulada: 1495,16 km.
Tempo pedalado: 7 h 30 min 48 s.
Velocidade média: 20,0 km/h.
Velocidade máxima: 32,5 km/h.

Extraído do diário da viagem:
Fui acordado pelo pai às quatro horas da manhã, sem a menor vontade de levantar. Arrumei todas as coisas com dificuldade por causa do sono. Para começar mal o dia, tivemos que transportar as bicicletas montadas escada acima, uma tarefa bem difícil [devido ao peso das bicicletas carregadas para a viagem e à pouca largura da escada]. Isso porque, apesar de termos pedido, não deixaram a chave da porta da frente para a pessoa de plantão (do albergue). Outra reclamação com relação ao albergue foi a falta de respeito ao horário de silêncio (que parece que existe só no papel).
Saímos pedalando de madrugada com uma vaga idéia da direção em que deveríamos seguir. Paramos em alguns postos para tentar encher os pneus e a cada possibilidade íamos perguntando por onde chegaríamos à rodovia que procurávamos. O pavimento dessa parte de Buenos Aires era péssimo, cheio de buracos e remendos. Andamos mais ou menos 25 km até começarmos a sair da cidade. O pai parou em um posto para encher os pneus e, pouco depois, o pneu traseiro estourou com um enorme rasgão. A solução foi colocar o pneu de reserva (emprestado pelo Jacson) e uma nova câmara. Ao encher o pneu, a válvula simplesmente caiu fora (quebrou), separando-se da câmara. Jacson emprestou outra câmara e, ao enchermos novamente, tudo parecia bem. Quando o pai resolveu terminar de encher em uma máquina de um posto de gasolina, a válvula estava estragada. Felizmente havia uma loja de consertos de bicicletas nas proximidades e o pai conseguiu resolver os problemas.
Pelo relato do diário percebe-se que nem tudo são boas lembranças nesse tipo de viagem, mas os maus bocados são facilmente esquecidos quando surgem as grandes paisagens. À procura delas começamos a deixar Buenos Aires, seguindo inicialmente por uma “autopista” onde o trânsito de bicicletas era proibido. Em uma praça de pedágio encontramos a tão temida (ao menos no Brasil) “La Policia” que nos tratou muito bem e nos indicou o caminho a seguir. Continuamos por uma via auxiliar e logo encontramos vento contrário e extremamente quente. Aproveitando uma sombra proporcionada por uma passarela de pedestres, medi a temperatura ao nível do chão: 50 graus Celsius, o limite de meu termômetro!!! Pouco depois medi novamente, desta vez enquanto pedalava: 40o C! Superando os nossos próprios limites, continuamos a pedalar rumo ao nosso próximo objetivo: conhecer a Basílica de Nossa Senhora de Luján e escapar do sol na sombra que, de um modo ou de outro, viria dos céus!