Saturday, March 31, 2007

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo sétimo capítulo




Vigésimo sétimo dia (18/01/01 – quinta) – Parque Provincial Aconcagua

Distância pedalada no dia: -
Distância total acumulada: 2660,20 km.

Amanheceu um belo dia, sem nuvens e com pouco vento. Pouco a pouco o calor do sol atingiu o Vale Horcones e elevou a temperatura que, durante a noite, havia baixado significativamente. Verifiquei a influência da sombra e do vento na temperatura: exposto ao sol e abrigado do vento pela barraca, o termômetro marcava vinte graus centígrados; no vento e à sombra, registrava apenas cinco graus!!!
Logo no início da manhã a movimentação incomum em torno do helicóptero de resgate nos chamou a atenção. Pouco depois da decolagem a aeronave retornava, trazendo um cambaleante andinista com olhos vendados. Uma ambulância já o aguardava e rapidamente a vítima foi levada para um hospital. Uma demonstração clara de que a ascensão daquela montanha exigia séria preparação.
Tomamos café e arrumamos o material na barraca, separando o essencial para a caminhada que pretendíamos fazer: casacos, água, um pequeno lanche e, claro, as máquinas fotográficas e os filmes. Pouco depois de deixarmos o acampamento passamos pela bela Laguna Horcones (2900 metros de altitude) e mais uma vez pudemos ver a imagem do Aconcagua refletida em suas águas. Seguimos por uma trilha nitidamente marcada em terreno pedregoso que margeava o Río Horcones. Trinta minutos depois, atravessávamos o rio por uma ponte suspensa por cabos na Quebrada del Río Horcones, bem próxima da Quebrada del Durazno. A partir daí a trilha seguia por terreno um pouco mais íngreme onde curiosas formações rochosas podiam ser admiradas. Algumas rochas pareciam prontas a desabar a qualquer momento; outras, como pontas de flechas, apontavam para o céu. Passamos por uma encosta inclinada onde escorregar não seria aconselhável: muitos metros abaixo, as águas revoltas do rio espremiam-se entre grandes pedras.
Seguindo pela trilha, caminhamos por aproximadamente duas horas e meia e novamente voltamos a nos aproximar do rio. Uma precária ponte improvisada sobre duas pedras permitia a passagem até a trilha que subia pela outra margem do rio. Estávamos chegando na Confluencia, região de encontro entre dois vales importantes na aproximação do Aconcagua. À direita, uma trilha seguia em direção ao Glaciar Horcones Inferior, ponto de passagem obrigatória para os escaladores da perigosíssima Parede Sul; à esquerda, a trilha seguia até o acampamento Confluencia e rumava de lá para a Plaza de Mulas, acampamento base para a grande maioria dos andinistas (que optavam pela rota menos difícil, chamada Via Normal). Atravessando mais uma ponte improvisada, chegamos ao acampamento Confluencia. Entre algumas barracas encontramos a dos amigos Fabrice e Jacson, que lá haviam passado uma fria noite (como saberíamos mais tarde). Deixamos uma mensagem sobre algumas pedras dentro da barraca, tomamos água cristalina e gelada diretamente de um riacho oriundo das geleiras e, após o registro fotográfico, retornamos pela mesma trilha. Se antes o Aconcagua dominava a paisagem por entre as montanhas, agora era a grandiosidade do vale que nos fascinava. Camadas de rocha em todas as direções tornavam as montanhas extremamente interessantes e a extrema limpidez do ar permitia a visão das paisagens mais longínquas. A falta de perspectiva em cenário tão grandioso distorcia nossa capacidade de avaliação: o que pareciam pequenas pedras na verdade eram rochas maiores do que edifícios!!! Foi muito bom poder compartilhar com meu pai, meu verdadeiro amigo, paisagens tão fantásticas.
A poeira acumulada sobre as botas serviu de quadro-negro para o registro: Aconcagua 2001. Quando voltaríamos para esse belíssimo cenário? Algum dia nos atreveríamos a ultrapassar os nossos limites, tentando chegar no alto da montanha? São perguntas que ainda não podemos responder. Quem sabe...

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo sexto capítulo




Vigésimo sexto dia (17/01/01 – quarta) – Parque Provincial Aconcagua

Distância pedalada no dia: -
Distância total acumulada: 2660,20 km.

O Parque Provincial Aconcagua [os termos sem acentos respeitam a grafia em espanhol] está situado na Provincia de Mendoza, a oeste da capital de mesmo nome, inteiramente na República Argentina. Foi declarado Area Nacional Protegida em 1983 e é uma das onze Reservas Naturales que formam o Sistema de Areas Naturales Protegidas da província. Compreendendo aproximadamente 71000 hectares, protege um importante setor dos Andes cuja altitude máxima encontra-se no topo do Cerro Aconcagua – 6962 metros sobre o nível do mar.
O Cerro Aconcagua está inteiramente dentro do parque e não forma limite com a República do Chile; suas coordenadas são 69o 59’ de longitude oeste e 32o 39’ de latitude sul, situando-se, portanto, em latitude um pouco maior do que Nova Petrópolis e Porto Alegre (30o sul). As vias de acesso à montanha são pelo Río Horcones e pelo Río Vacas, levando aos dois principais acampamentos-base, Plaza de Mulas e Plaza Argentina.
A entrada do parque mais freqüentada (80 % dos acessos) se encontra a poucos quilômetros de Puente del Inca; nessa entrada localiza-se a Jefatura Central do parque, em uma cabana denominada Refugio de Horcones, a 2850 metros de altitude. Da Jefatura são coordenadas todas as atividades de manejo do parque, bem como o serviço de resgate de helicóptero.
De acordo com os comentários dos guias internacionais que chegam à montanha todos os anos e que já escalaram montanhas no Himalaia, os quase 7000 metros do Aconcagua equivalem, tanto em esforço físico quanto psicológico, à ascensão de uma montanha de 8000 metros. Isto se deve às condições climáticas dos Andes Centrais que, na mesma altitude, são muito mais severas que no Himalaia onde, por exemplo, a vegetação chega até os 5000 metros de altitude; nos Andes Centrais, ao contrário, a cobertura vegetal dificilmente chega aos 3500 metros acima do nível do mar. No Aconcagua a umidade relativa é extremamente escassa e a porcentagem de oxigênio também diminui pela mesma razão. Os ventos produzem zonas de baixa pressão que intensificam esses efeitos. O aspecto desértico e o isolamento afetam psicologicamente o mais preparado andinista, contribuindo para aumentar a dificuldade da ascensão. Deve-se ter em conta também que os acampamentos-base, dos quais são iniciadas as escaladas, encontram-se a mais de 4000 metros de altitude. A maioria das montanhas da Europa e dos Estados Unidos não chegam a essa altitude, motivo pelo qual os alpinistas europeus e americanos não estão acostumados a essas condições e não dão importância aos sinais de perigo, conhecidos pelo nome genérico de mal da montanha. O mal da montanha é o resultado da falta de aclimatação – adaptação do organismo humano à altitude – e afeta uma grande porcentagem de andinistas. Se não for tratado adequadamente pode dar origem a um edema pulmonar ou cerebral e colocar em risco a vida não somente da pessoa afetada, mas também de seus colegas de escalada, visto que a remoção de uma pessoa incapacitada de uma montanha expõe as pessoas envolvidas a uma série de riscos.

Na manhã do primeiro dia de acampamento no Parque Provincial Aconcagua acordamos com tempo bom, céu azul e sol forte. Ansiosos por apreciar as paisagens das quais antes só tínhamos relatos ou fotografias, não percebemos que os efeitos da altitude já se faziam presentes. Mais tarde eles seriam detectados.
Ainda no início da manhã pudemos testemunhar a habilidade dos pilotos de helicóptero de resgate. Essa mesma aeronave, como um grande adesivo indicava, havia sido utilizada na Eco Challenge da Patagônia, uma das maiores corridas de aventura do mundo (patrocinada pelo Discovery Channel). O ar rarefeito devido à altitude provocava perda de sustentação do aparelho, o que foi facilmente observado quando o helicóptero decolou, seguindo rapidamente por entre as montanhas. No retorno, já com bastante vento, a precisão do pouso naquelas circunstâncias foi impressionante.
Daniel, nosso colega argentino de pedalada por alguns dias despediu-se e seguiu rumo a Viña del Mar. A primeira providência após o café da manhã foi a regularização de nossa permanência no parque (através da validação do Permiso de Ingreso que havíamos recebido em Mendoza), feita em uma tenda em frente à cabana do Refugio de Horcones. Com a permanência de três dias no parque concedida, lá fomos nós conhecer a Laguna de Los Horcones (2900 metros de altitude), mirante natural fantástico onde o Aconcágua pode ser visto refletido na água. Naturalmente, tiramos também uma fotografia em frente à placa que se refere ao Aconcagua. Um comboio de mulas – comumente utilizadas para o transporte do volumoso equipamento para alta montanha – seguia pela trilha ao longo do Vale Horcones rumo à Plaza de Mulas, a 4265 metros de altitude. Pareciam pequenas formigas se comparadas à grandiosidade das montanhas que nos cercavam.
Retornando ao acampamento, combinamos que Fabrice e Jacson iriam a Puente del Inca comprar mantimentos, enquanto Egon e eu mudaríamos a barraca para um local mais adequado, aproveitando a intensidade ainda fraca do vento. Escolhemos uma área coberta por capim nas proximidades do refúgio e tratamos de ancorar a barraca com pedras, o que se revelou uma boa estratégia para enfrentar os ventos fortes. O Vale do Río Horcones não tinha esse nome por acaso...
Os efeitos da altitude começaram a se revelar quando meu resfriado se transformou em mal estar e secreções com sangue. Decidi que continuaria acampado com meu pai e não seguiria mais adiante se não melhorasse; Fabrice e Jacson iriam até Confluencia, bifurcação entre os caminhos para dois acampamentos-base e lá montariam uma barraca para passar a noite.
Preparamos um almoço à base de massa e organizamos o material. Por volta das duas horas da tarde Fabrice e Jacson seguiram caminhando rumo a Confluencia. Meu pai e eu tratamos de colocar as bicicletas juntas, presas pelo meu cadeado a uma cerca de madeira. Lá elas estariam seguras no seu descanso de três dias. Com o material organizado e o novo acampamento montado, fomos caminhar até a aduana onde havíamos estado na tarde anterior. De lá pudemos enviar notícias para casa e ficar sabendo que todos estavam bem. Aproveitamos para tomar um suco de laranja. O vento estava frio e algumas nuvens começavam a se aproximar. Tratamos de voltar, pois os chuviscos que começavam a cair estavam realmente gelados! Algumas vezes eu precisava tossir e eventualmente expelia um pouco de sangue; o organismo avisava que estava debilitado. No retorno ao acampamento tratei de me enfiar no saco de dormir, pois o repouso seria a melhor alternativa. Após a janta preparada pelo pai – pão com doce de leite e, para beber, café com leite –, conversando, ficamos imaginando como estariam se comunicando os nossos companheiros, pois Jacson não falava inglês ou alemão e Fabrice mal “arranhava” o espanhol; logo ficaríamos sabendo que eles haviam conseguido se entender sem problemas. A temperatura caiu bastante durante a noite e o céu, estrelado, nos fez sonhar com as novas paisagens do dia seguinte...

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo quinto capítulo




Vigésimo quinto dia (16/01/01 – terça) – Uspallata ao Parque Aconcagua

Distância pedalada no dia: 79,64 km.
Distância total acumulada: 2660,20 km.
Tempo pedalado: 5 h 54 min 43 s.
Velocidade média: 13,5 km/h.
Velocidade máxima: 71,0 km/h.

Demoramo-nos bastante na pequena cidade de Uspallata, a 1751 metros de altitude, antes de seguirmos viagem pela Cordilheira dos Andes. Percorremos vários quilômetros em uma região ampla e plana rodeada por altas montanhas antes de entrarmos novamente no estreito vale formado pelo rio Mendoza. As montanhas que surgiam a cada nova curva da estrada eram surpreendentes, quer pelo seu formato, quer pelo colorido. Em uma mesma montanha podíamos ver faixas de minerais avermelhados, esverdeados, azulados, claros e escuros. O ar, livre da presença de poluentes, permitia a visão a grandes distâncias, o que modificava completamente a perspectiva. Uma montanha que parecia estar “logo ali” na verdade estava a muitos quilômetros. A erosão provocada pelas águas na margem do rio parecia ter apenas alguns metros de altura mas, quando comparada com a altura de uma estação férrea abandonada, revelava ter mais de cinqüenta metros!
O dia estava ensolarado e bastante quente, convidando-nos a uma parada em um rio de águas geladas – um afluente do rio Mendoza – que passava sob uma ponte antiga. Bebemos aquela água extremamente limpa que jorrava diretamente dos picos gelados da cordilheira: uma delícia! Jacson enfrentava novamente problemas com a bicicleta, provavelmente ocasionados pelo excesso de peso. Resolveu retirar toda a bagagem e desmontar a roda para verificar o que havia. Fabrice aproveitou a parada forçada para fazer um lanche.
De volta à estrada, seguimos pedalando e cruzamos o rio pouco antes de chegarmos a Punta de Vacas (2325 metros de altitude), onde encontramos uma Gendarmeria Nacional da Argentina e o primeiro acesso ao Parque Provincial Aconcagua, a Quebrada del Río Vacas. Uma trilha acompanhando esse rio dá acesso às paredes leste e norte do Aconcagua para os montanhistas que desejam se aventurar pelas vias de escalada daquelas faces.
Pouco adiante de Punta de Vacas dois vales importantes se encontram, o Vale do Tupungato e o Vale Inca. Tupungato é um imponente vulcão com 6650 metros de altitude, menos famoso mas tão ou mais difícil de ser escalado do que o Aconcagua. No encontro entre esses dois vales a estrada desviava bruscamente para a direita, seguindo pelo Vale Inca ao lado do Río de Las Cuevas. Ao “dobramos a curva” parecia que alguém com espírito brincalhão resolvera ligar um ventilador gigante: recebemos uma verdadeira bofetada de vento. As bicicletas seguiam com dificuldade em primeira marcha quando percebi um estalo e senti que um raio da roda traseira havia se partido. Com a roda torta, a melhor opção foi empurrar a bicicleta nos trechos mais íngremes, evitando que o problema se agravasse. Pouco adiante chegávamos em Los Penitentes – uma estação de esqui a 2580 metros de altitude – e, na providencial parada, a roda foi provisoriamente endireitada (mas ainda com um raio faltando).
Reiniciando a jornada pela Ruta 7, deixamos a estrada asfaltada e seguimos por uma trilha até o Cementerio de los Andinistas. Inúmeras lápides com inscrições nos mais diversos idiomas e alguns túmulos com lembranças de escaladas – fragmentos de cordas ou objetos utilizados nas escaladas – nos fizeram refletir sobre o nosso entusiasmo pela cordilheira. Muitas das pessoas que jamais voltaram da montanha foram para lá despreparadas, sem a menor noção do que significa a escalada no mais alto cume das Américas (e, com exceção do Himalaia, do mundo). Nós, que visitaríamos apenas a base do Aconcagua, sentiríamos na pele os efeitos da altitude.
A tarde avançava e, como queríamos chegar ainda com a luz do dia na entrada do Parque Provincial Aconcagua, voltamos à estrada. Poucos quilômetros adiante chegamos a um dos mais interessantes monumentos naturais de toda a viagem a 2720 metros de altitude. Puente del Inca é uma ponte natural de 50 metros de comprimento, 15 metros de largura e 40 metros de altura que forma uma barreira no vale do rio Las Cuevas, cujas águas vão engrossar mais adiante no rio Mendoza. Exatamente a montante da ponte, jorram três nascentes termais: Netuno (370 C), Champaña (390 C) e Vênus (400 C). As suas águas, com forte teor de calcário, têm o estranho poder de petrificar todo e qualquer objeto nelas intencionalmente deixado pelos turistas. Além disso, conferem às rochas estranhas cores, pelas reações químicas que provocam. O poder curativo destas águas era conhecido desde a época inca, o que explica o nome do local. Aí acorriam, em busca de um tratamento eficaz, indivíduos que padeciam de doenças da pele, artrite, afecções respiratórias...
Impossível resistir! Atravessamos a Puente del Inca e, apesar do vento frio, lá fomos nós para o banho! A pequena piscina natural estava realmente quente e qualquer parte do corpo que ficava exposta ao vento imediatamente denunciava que sair daquela água borbulhante brotando da terra seria bem difícil... No exato instante em que saltei para o vento gelado percebi o significado da palavra hipotermia. Meu corpo tremia convulsivamente de tal maneira que colocar os cadarços das botas nos passadores se tornou uma tarefa quase impossível. Tratei de correr, pular e tentar me esconder do vento descendo as escadarias ao lado da Puente para conseguir me aquecer. Com o frio relativamente controlado, pude me deter na observação do local em que estava. Um hotel havia sido construído ao lado da Puente, aproveitando as termas de água quente. No inverno de 1965, porém, uma avalanche provocou a destruição quase total da construção. A partir desse acontecimento a água carregada de sais minerais passou a recobrir paredes, piso, escadas e teto do que restou da construção, colorindo-a com tons amarelados e dando um aspecto semelhante ao da rocha.
Como o dia estava findando, montamos novamente nas bicicletas e seguimos novamente pela Ruta 7. Paramos no Complejo Aduanero Los Horcones para regulamentar a documentação que necessitaríamos para sair da Argentina. Quando entrássemos em território chileno deveríamos passar por uma aduana chilena. Os trâmites burocráticos foram rápidos e logo pudemos seguir os poucos quilômetros que faltavam até a entrada do parque. Pudemos apreciar a primeira visão do imponente pico do Aconcagua antes mesmo de entrarmos na estrada de chão batido que dá acesso ao Parque Provincial. Nuvens espessas nas proximidades indicavam que, provavelmente, uma nevasca se abatia sobre a montanha. Mesmo no verão as tempestades de neve ocorrem constantemente e as temperaturas podem chegar a trinta graus negativos nos locais mais elevados e expostos ao vento originário do Oceano Pacífico.
Chegamos à entrada do parque e tratamos de montar acampamento para aproveitar os últimos instantes de claridade. Coincidentemente encontramos três gaúchos que nos indicaram os locais mais indicados para acampar. A temperatura começou a cair, forçando-nos a procurar o abrigo da barraca e o conforto do saco de dormir. No dia seguinte teríamos tempo para contemplar a incrível paisagem do Parque Provincial Aconcagua. Estávamos no coração dos Andes!!!

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo quarto capítulo




Vigésimo quarto dia (15/01/01 – segunda) – Mendoza a Uspallata

Distância pedalada no dia: 122,48 km.
Distância total acumulada: 2580,56 km.
Tempo pedalado: 6 h 20 min 32 s.
Velocidade média: 19,3 km/h.
Velocidade máxima: 62,0 km/h.

Preparamo-nos para deixar a bela cidade de Mendoza, com suas ruas arborizadas e as características canaletas para água do degelo. Arrumamos o equipamento nos alforjes das bicicletas, tomamos café, posamos para uma fotografia em frente ao albergue e colocamos o pé na estrada, deixando esse local tão simpático para trás. Cruzamos o rio Mendoza, que mais tarde acompanharíamos em seu curso pelo interior da cordilheira.
Primeiramente desviamos para o sul, passando pela refinaria de petróleo de Luján de Cuyo e por pequenas propriedades onde o cultivo de frutas parecia ser uma regra. Desviamo-nos da estrada principal e tomamos uma simpática rodovia ladeada por árvores, extremamente agradável. Estávamos felizes pela aproximação da cordilheira, o ponto alto (em todos os sentidos) da viagem. E logo pudemos contemplá-la, em todo o seu esplendor, com altos picos cobertos de neve eterna.
Avançando pela Ruta 7, fomos nos aproximando cada vez mais da pré-cordilheira até que começamos a pedalar entre as montanhas. Inicialmente houve uma subida constante e uma grande descida até a localidade de Potrerillos, onde paramos para almoçar. Quase sem perceber, já estávamos em uma região típica da pré-cordilheira, a 1351 metros de altitude. Nessa parada para o almoço encontramos o Daniel, um ciclista argentino que estava fazendo uma pequena viagem ao Chile. Oferecemos a nossa alegre companhia e o grupo aumentou para cinco ciclistas. Teríamos ainda cinqüenta quilômetros sem pontos de reabastecimento para percorrer, então tratamos de levar toda a água possível.
A estrada seguia sempre ao lado da antiga ferrovia trans-andina, que ora estava numa, ora na outra margem do rio Mendoza. A construção dessa ferrovia deveria ter sido uma tremenda obra de engenharia, pois ela seguia serpenteando espremida entre o rio e os paredões de pedra das montanhas. Com o advento do transporte rodoviário (e toda a pressão econômica daí advinda) a ferrovia foi esquecida e abandonada. Avalanches e desmoronamentos de pedras destruíram vários trechos em locais mais expostos. Algumas vezes montanhas imensas desciam diretamente até a estrada, obrigando-nos a passar por uma sucessão de túneis.
No diário de viagem escrevi que a paisagem nesse dia foi belíssima, pois passávamos por gargantas estreitas bem ao lado do rio Mendoza, cujas águas marrons bem agitadas eram um convite para uma descida de caiaque ou de bote. As montanhas tinham várias cores e formatos e no topo das mais altas a neve branca contrastava com a aridez do restante da paisagem. Quando faltavam aproximadamente 20 km para Uspallata as nuvens se tornaram negras e vez por outra se ouvia o barulho das trovoadas. Tive que parar para ensacar algumas coisas e para colocar uma capa de chuva, pois pingos grossos começaram a cair. Choveu pouco mas o suficiente para molhar tudo o que não estava protegido.
Quando chegamos nas proximidades da cidade, paramos em um posto de gasolina para tomar suco. O vento já estava relativamente frio se comparado àquele ao qual estávamos acostumados.

A aridez do verdadeiro deserto onde pedalávamos era enigmática. Mesmo às margens do rio Mendoza, apenas pequenos arbustos conseguiam sobreviver. Esse panorama modificou-se quando atravessamos o caudaloso rio por uma ponte metálica e o vale estreito onde pedalávamos foi dando lugar a uma grande região plana cercada por altas montanhas, o Pampa de Tobolango. Algumas construções e o surgimento de vegetação – inclusive grandes árvores – denunciavam a proximidade da nossa próxima escala na viagem pela cordilheira: a cidade de Uspallata.
Chegando na cidade, procuramos o camping mas, ao negociarmos um desconto, acabamos ficando alojados em uma cabana, ao custo de oito pesos por pessoa. Depois de um bom banho quente, fomos a um mercado comprar alimentos. A janta foi composta por salsichão e carne no forno (preparados por Egon), massa (feita pelo Daniel), pão e suco de laranja. Durante a janta percebemos que a comunicação havia mudado um pouco, pois Daniel falava apenas espanhol. Agora tínhamos alguém para nos ajudar na tradução. Preparei café com leite e Fabrice lavou a louça. O diário de viagem foi atualizado. Durante essa tarefa era possível olhar para o mapa geral do roteiro e admirar todo o caminho que já havíamos percorrido. Estávamos finalmente na tão comentada cordilheira, na pequena cidade de Uspallata, a 1751 metros acima do nível do mar. As montanhas nos deixavam maravilhados pela sua beleza. O ar, extremamente limpo, permitia a visualização de grandes extensões. Realmente um cenário magnífico, escolhido inclusive pelo diretor Jean-Jacques Annaud para a realização do filme épico – protagonizado por Brad Pitt – Sete Anos no Tibet. Nesse cenário, no dia seguinte, teríamos oitenta quilômetros de subidas, ultrapassando os três mil metros de altitude em pleno coração da Cordilheira dos Andes...

Thursday, March 01, 2007

De bicicleta pelo Cone Sul - décimo terceiro capítulo




No final de nossa terceira semana de viagem estávamos às portas da Cordilheira dos Andes, entrando na província de Mendoza (Argentina). A aridez do solo, a vegetação espinhenta e a paisagem inóspita nos faziam pensar que não seria muito bom ter problemas naquele lugar, longe de qualquer auxílio.
O dia quente e ensolarado estimulava a pedalada. Chegando na pequena cidade de La Paz, não encontramos nenhum local para pernoitarmos que oferecesse a possibilidade de banho. Resolvemos seguir adiante, pedalando mais 36 quilômetros até a localidade de La Dormida – ao menos o nome era convidativo! Acampamos nas proximidades de um posto de gasolina YPF. Após o banho e a janta, preparada com comida que havíamos comprado ainda em San Luís, a principal tarefa era anotar os principais acontecimentos no diário. Feito isto, resolvi pedalar cerca de um quilômetro até o centro do vilarejo, pois não estava com vontade de dormir (ao contrário dos demais companheiros de viagem, que já ressonavam). Acabei conhecendo uma festa típica local, a “Fiesta de la Cueca Y el Damasco”. Não, não se tratava de nenhuma festa onde as pessoas deveriam comparecer somente com as roupas de baixo. Tratava-se de uma confraternização popular com música e dança típicas. Como uma bicicleta carregada com bagagens não poderia passar despercebida, acabei sofrendo o interrogatório de Nidia, Soledad, Daniela, Flavia, Jorgelina e Laura, estudantes que queriam saber tudo sobre o Brasil e acabaram descobrindo a existência de uma cidade chamada Nova Petrópolis, a mais de dois mil quilômetros dali.

Vigésimo segundo dia (13/01/01 – sábado) – La Dormida a Mendoza

Distância pedalada no dia: 104,72 km.
Distância total acumulada: 2458,08 km.
Tempo pedalado: 3 h 56 min 40 s.
Velocidade média: 26,5 km/h.
Velocidade máxima: 40,0 km/h.

Acordamos já com sol e céu azul, um dia muito bonito. Não havia vento. Tomamos chimarrão, arrumamos o material e comemos alguma coisa (banana, bolachas) para “café da manhã”. Ao saírmos havia uma brisa fraca soprando favoravelmente. Foi aumentando ao longo do dia. A velocidade da viagem foi uma das maiores até agora, pois as condições estavam ideais. Por volta dos 30 km paramos em um posto de gasolina para tomar iogurte e Gatorade. A pedalada continuou em ritmo forte e a paisagem mudou completamente se comparada ao dia anterior. O deserto deu lugar a plantações de duraznos [pêssegos], ciruelas [ameixas], oliveiras, uvas. Havia plantações muito bem organizadas. Paramos em uma tenda para comer melancia e descansar um pouco. O sol estava quente ao abrigo do vento. Continuando viagem, passamos pelo rio Mendoza, com pouca água (e barrenta). Passamos por uma zona industrial feia e com bastante lixo à margem da rodovia. Entrando em Mendoza, porém, fomos refrescados pela sombra das largas ruas arborizadas.
Como relatado no diário, pedalávamos em um típico dia de bom tempo, já sofrendo os efeitos da presença da ainda invisível cordilheira. As nuvens de chuva, barradas pelas montanhas, não chegariam com facilidade àquele local. Como explicar então a presença de uma cidade muito bem arborizada e as plantações de frutas em meio à paisagem desértica? Toda a fartura que encontrávamos se devia unicamente à água de degelo que, canalizada desde as montanhas, servia para irrigar as culturas. Passando por canaletas – chamadas acequias – dentro da cidade, propiciava o crescimento das frondosas árvores que agora nos protegiam com sua sombra.
Mendoza, fundada em 1561, situada a 761 metros acima do nível do mar, ao pé da Cordilheira dos Andes. Com uma população de aproximadamente 880.000 habitantes (a quarta maior cidade da Argentina), destaca-se como um dos centros regionais administrativos e comerciais mais importantes. Se comparada com a aridez do restante do Pampa, poderia ser considerada um oásis com parques, cafés à sombra das árvores nas calçadas, farta gastronomia e deliciosos vinhos. Apesar de seu tamanho, a violência urbana não chega a ser um problema tão grande quanto o risco de se cair em uma canaleta depois de beber um pouco mais do que devia...!
Rapidamente encontramos um serviço de informações turísticas muito bem localizado e com excelente atendimento. Dentre as várias opções que se encaixavam no nosso orçamento restrito, escolhemos o Albergue da Juventude Campo Base. Poucas quadras adiante já nos inscrevíamos e, depois de pagar oito pesos, tratamos de acomodar as bicicletas e todo o equipamento que transportávamos. O albergue estava lotado de viajantes de todo o mundo, a grande maioria indo ou voltando do Monte Aconcágua, a grande atração da região. Mochilas, cordas e equipamento de escalada estavam em toda a parte. Depois de um bom banho fomos passear a pé pelo centro da cidade. Almoçamos “milanesa con papas fritas” e tomamos suco de laranja em um simpático restaurante com mesas na calçada. Deixamos espaço para tomarmos um excelente “helado” (sorvete) e fomos procurar um provedor de internet. Fabrice nos mostrou a página de sua volta ao mundo – tdmfabrice.free.fr – muito bem feita, por sinal. Nem sabíamos, mas em breve também estaríamos nela!
À noite passeamos pela Plaza Independencia, no centro. Havia música, chafariz iluminado, artistas, feira de artesanato e muita gente nas ruas. Caminhamos mais um pouco e tomamos mais um delicioso “helado” antes de voltarmos ao albergue. Enquanto eu atualizava o diário, holandeses, argentinos, ingleses e austríacos conversavam – os sotaques eram os mais diversos! Conversando com um guia de montanha austríaco que havia levado holandeses para escalar o Aconcágua, descobri que a montanha mais alta do mundo fora do Himalaia (Ásia) pode ser realmente fria: 30 graus negativos! O austríaco, acostumado com as montanhas, respondeu olhando para o vazio quando perguntei a respeito: “frio, muito frio...”
O dia seguinte estava reservado para preenchermos as formalidades de ingresso no Parque Provincial Aconcágua. Fomos ao prédio da Subsecretaria de Turismo, preenchemos fichas de inscrição e pagamos a taxa de 20 dólares que nos daria direito a realizar o “trekking corto” de três dias pelo parque. Resolvemos conhecer o Cerro de La Gloria, esperando finalmente enxergarmos a cordilheira. Depois de uma verdadeira odisséia em busca do ônibus certo, chegamos ao tal cerro de injustificada fama. A visita realmente não valeu a pena. Voltando ao centro da cidade, o que salvou o dia foi uma visita ao terraço do prédio da Municipalidad (Prefeitura), onde pudemos ter uma bela visão da cidade e da pré-cordilheira.
À noite jantamos frango assado, queijo e pão, comemorando o fato de que, no dia seguinte, finalmente entraríamos na tão esperada Cordilheira dos Andes!!! Alguns montanhistas do albergue, vendo as bicicletas carregadas, achavam que não conseguiríamos pedalar pela cordilheira – teríamos que empurrar. Nós, ao contrário, apesar de não conhecermos a estrada (nem a subida) e os efeitos da altitude em nosso organismo, acreditávamos em nossa capacidade. No dia seguinte saberíamos...