Monday, January 01, 2007

De bicicleta pelo Cone Sul - quinto capítulo


Se na noite de Natal os mosquitos é que não nos haviam deixado dormir, desta vez o problema foi diferente e até mesmo cômico (para quem não teve que passar por ele!). No Albergue Altena 5000, em La Paloma, no Uruguai, nosso grande (em tamanho) vizinho de alojamento deve ter imaginado que gostaríamos de participar de seus sonhos, pois roncava e falava – o que é pior, em espanhol! – em tom tão alto que o meu beliche chegava a estremecer!!! Por ser uma pessoa que poderíamos considerar obesa, sua caixa de ressonância proporcionalmente grande nos fez sofrer para pegar no sono. Mas precisávamos descansar para, no outro dia, quem sabe, conhecermos Punta del Este, a cidade dos ricos e famosos!

Oitavo dia (30/12/00 – sábado) – La Paloma a La Barra (Punta del Este)

Distância pedalada no dia: 135,54 km.
Distância total acumulada: 955,39 km.
Tempo pedalado: 6 h 24 min 52 s.
Velocidade média: 21,2 km/h.
Velocidade máxima: 50,5 km/h.

Nesse segundo sábado de viagem acordamos cedo e tomamos o café oferecido pelo albergue: café com leite e três croissants – pouco para sustentar um dia de pedalada. Saímos do Parque Andresito e fomos à oficina de bicicletas onde havíamos passado no dia anterior. Após pequenos reparos e uma breve parada para calibrar os pneus, seguimos viagem, passando uma vez mais pela orla marítima para fotografar a praia de La Paloma. Pedalamos até Costa Azul – uma praia com cores fantásticas! – e retornamos ao acesso principal (Ruta 15) para chegarmos novamente à Ruta 9, afastando-nos um pouco do litoral. No entroncamento com a referida via paramos ao lado de um posto de gasolina para lanchar, já que o café da manhã havia sido pouco substancial.
Novamente seguindo rumo ao sul, encontramos vento contrário. Não muito forte, mas constante, desgastando-nos por causa da grande superfície dos alforjes com bagagem exposta ao vento. A baixa velocidade nos permitia apreciar a paisagem e perceber o quanto o relevo já havia mudado, pois naquele momento já encontrávamos várias subidas e descidas de coxilhas. Por volta do meio dia encontramos um Parador na beira da estrada e almoçamos uma “milanesa” (lanche muito comum na região), composto por pão e um bife à milanesa incrivelmente maior!
Precisamente no km 143 entramos à esquerda, seguindo agora pela Ruta 104 com destino à praia de Manantiales. Pelo caminho vimos muitas árvores com galhos destruídos pelo vento – aquele mesmo que havia soprado quando passávamos pela imensa região de banhados do Taim, no Rio Grande do Sul. Ao lado da rodovia encontramos uma fábrica artesanal de tijolos onde paramos para conhecer o processo de fabricação. Os tijolos são confeccionados com capim misturado ao barro do próprio local. Formas de madeira com capacidade para dois tijolos recebem a mistura, que é então compactada e desenformada. Uma pilha com algumas unidades fica alguns dias secando ao sol e posteriormente é levada ao forno para cozimento. Segundo a explicação de um velho senhor que trabalhava no local, uma pessoa com bom ritmo de trabalho consegue produzir dois mil tijolos por dia mas essa produção, entretanto, pode sofrer grandes baixas, pois depende das condições de tempo. Quando chegamos ao local muitos tijolos estavam sendo lançados de volta à lama pois haviam sido destruídos pelo temporal. Infelizmente esse tipo de indústria primitiva está desaparecendo, sufocado pela pressão imposta pelas grandes empresas do setor. A respeito do temporal, ficamos sabendo que na região grandes estragos haviam acontecido em algumas faixas de terra, como se tornados houvessem passado em locais específicos, arrancando telhados e destruindo placas.
Voltando à estrada, ao chegarmos a Manantiales fomos diretamente ao Albergue da Juventude. Infelizmente estava sem vagas disponíveis e não poderíamos ficar, apenas acampar. Optamos por seguir em frente, rumo a Punta del Este pela Ruta 10, costeando o litoral. Passamos pela lotadíssima Playa Bikini – onde tivemos que manobrar entre conversíveis e todos os incontáveis carros de luxo dos novos-ricos freqüentadores –, Montoya e chegamos a La Barra. O Balneario La Barra está situado a onze quilômetros de Punta del Este e seu nome deve-se à desembocadura do Arroyo Maldonado. A travessia desse curso d’água é feita pela Puente Leonel Vieira, também conhecida por Puente Colgante de la Barra. Construída em 1965, é o cartão-postal da praia, pois possui uma interessante estrutura ondulante que chama muito a atenção.
Passando pela ponte, seguimos rumo a Punta del Este pedalando entre o mar e as enormes mansões com verdes gramados sempre irrigados que parecem campos de golfe. Um local onde o luxo e a riqueza parecem fazer parte do cotidiano. Mas nem sempre foi assim. Em 1829 chamava-se Ituzaingó e apenas a partir de 1907 ganhou o seu nome definitivo e internacionalmente conhecido. No início de sua povoação a península enfrentava grandes problemas com o transporte, pois dunas móveis constantemente impediam o acesso ao local, tornando-a refúgio para uns poucos pescadores. A urbanização foi lenta e foi somente na década de 50 que começou a se processar em ritmo mais acelerado. Nos últimos anos teve um crescimento de grande magnitude e, se somarmos as praias vizinhas e a cidade de Maldonado, encontraremos mais de 100.000 habitantes permanentes.
Seguindo adiante, fomos parados por Pablo Corradi, um fotógrafo que trabalhava no Jornal La Nacion. Ele gostaria de aproveitar a excelente luz do final da tarde para nos fotografar pedalando. Concordamos, ele nos fotografou e prosseguimos viagem. Em Punta del Este procuramos em vão por um local para passar a noite que atendesse às nossas expectativas de simplicidade e baixo custo. Nenhum camping ou albergue. Decidimos então seguir uma indicação e voltamos às proximidades da Puente de La Barra e, depois de uma breve procura, encontramos o excelente Camping San Rafael, um dos melhores – senão o melhor – campings privados do Uruguai. O camping possui 212 lotes cercados e arborizados para barracas, trailers e reboques. Cada um com uma churrasqueira, mesa com bancos e acesso à eletricidade. Existem várias áreas de acesso comum com telhado e churrasqueiras, mesas, bicas de água, pias, além, naturalmente, de banheiros com água quente. Além disso, o local oferece serviços de cafeteria, restaurante, supermercado, lavanderia, sala de jogos, tv e vídeo, telefones, correio, atendimento médico, piscina para crianças, quadras para várias modalidades esportivas (futebol, basquete, vôlei, tênis, bocha), isso tudo com segurança 24 horas por dia. Preferindo ainda mais conforto e comodidade, pode-se optar por alugar uma cabana. Realmente um exemplo de organização e sem dúvida um negócio lucrativo (pela quantidade de usuários que encontramos).
Ao lado do nosso acampamento um casal de suíços preparava um jantar à luz de velas – eles haviam começado a viajar pela América do Sul a partir do Equador e, como nós, estavam na região para a passagem de ano novo; aproveitamos o clima festivo da data para prepararmos uma janta caprichada (queijo, pão, leite, suco de laranja, sardinhas, manteiga, mel, café, sopa, massas, bolachas...) e dormimos excelentemente bem, já que todos os nossos inúmeros vizinhos de camping provavelmente já estavam habituados a respeitar todos ao seu redor. Isso nos chamou a atenção, pois no Brasil é difícil encontrar vizinhos de acampamento que respeitem os demais. Acampamento para muitos ainda é sinônimo de bebedeira e barulho.
Nos próximos dias pretendíamos pedalar por Punta del Este, conhecer Piriápolis e nossa segunda capital no Mercosul, Montevidéo. Daí para a frente teríamos apenas mais dois dias em território uruguaio, pois chegando em Colonia del Sacramento tomaríamos um barco para atravessar o Rio da Prata e entrar na Argentina. Mas até lá haveria ainda um longo caminho e algumas surpresas, como pneus furados e um inesperado acampamento debaixo de uma ponte.

2 comments:

JorgeOK said...

Ai vizinho.
Jorge Kohlrausch de Caxias do Sul acompanhando a partir de hoje.
O endereço do blog foi colocado no Bike-RS.
Grande abraço e muitas felicidades em todo o trajeto por onde passarem.

http://www.serrabikers.blogspot.com/

orkut: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=10785316480967102170

Leonardo Esch said...

Olá Jorge,
verás que essa pedalada já aconteceu há algum tempo. Mas sempre é bom relembrar os caminhos percorridos, além disso pode ser um incentivo para quem está se encorajando a pedalar para um pouco mais longe.
Legal saber que existe um grupo aqui da serra!
Abraço,
Leonardo.
leo_esch@yahoo.com