Saturday, January 13, 2007

De bicicleta pelo Cone Sul - sétimo capítulo


Décimo dia (01/01/01 – segunda) – Piriápolis a Montevideo

Distância pedalada no dia: 111,17 km.
Distância total acumulada: 1129,63 km.
Tempo pedalado: 5 h 36 min 40 s.
Velocidade média: 19,7 km/h.
Velocidade máxima: 37,0 km/h.

No primeiro dia do ano 2001 saímos do Camping El Toro de Piriápolis por volta das 8 h e 40 min, passando pelo centro da cidade à procura de uma oficina para fazer um pequeno reparo nas bicicletas. Como era esperado, não encontramos nenhum estabelecimento aberto nessa sonolenta manhã e seguimos costeando o litoral do Rio-Mar da Prata até o Balneario Solis, quando então deixamos de avistar a costa para seguirmos pela Ruta Interbalnearia. O dia estava bastante quente já pela manhã, com algum vento contrário. Aproveitando o calor, tomamos banho de rio quando paramos para descansar. O movimento na estrada estava bastante fraco em virtude do feriado (ao menos pela parte da manhã) e resolvemos continuar pela mesma estrada, apesar de ser proibida a circulação de bicicletas. Depois de algum tempo, desviamos novamente para o litoral, ocasião em que encontramos uma grande quantidade de carros velhos abarrotados de gente com destino à praia. Concluímos logo que no Uruguai também há farofeiros como no Brasil, pois uma grande algazarra era ouvida tanto durante o deslocamento quanto na chegada à praia. O péssimo estado de conservação de alguns veículos e o excesso de lotação nos faziam imaginar que o número de acidentes de trânsito deveria ser muito maior.
Novamente costeando o litoral, fomos entrando em Montevideo. Percebemos muita sujeira na estrada e parecia que a cidade estava vazia, com todos aproveitando o feriado nas praias. Seguíamos ainda pela orla do Rio da Prata em direção ao centro, passando por um belo prédio antigo, quando furei meu pneu pela segunda vez na viagem. Parados na calçada, desmontamos a roda, retiramos o espinho e a câmara furada e colocamos uma nova. Com alguma dificuldade nos revezamos no enchimento do pneu (pois a pressão deveria ser grande para suportar o peso de todas as tralhas de viagem). Conserto feito, seguimos adiante.
Pedalamos por vários quilômetros, sempre nas proximidades da orla do rio, até encontrarmos as ruas que nos levariam ao albergue. A partir da localização no mapa, rapidamente encontramos o prédio antigo em estilo espanhol com portas de mais de quatro metros de altura onde está situado o Albergue da Juventude Schirrmann-Münker. Com nossas carteiras de alberguistas rapidamente encaminhamos o registro e fomos tomar um bom banho para afugentar o calor.
Para aproveitar o final de tarde, optamos por uma caminhada ao centro de Montevideo. Estranhamos a grande quantidade de lixo espalhado pelas ruas, e imaginamos que poderia ser resultado da festa de ano novo, mas mais tarde nos explicaram que era pura e simplesmente falta de consideração das pessoas com o ambiente em que vivem, infelizmente. Uma cidade com 1.300.000 habitantes deveria ter mais preocupação com esse problema.
No coração da cidade paramos na Plaza Independencia para comer papas fritas e tomar suco de laranja. Ao nosso lado podíamos ver prédios antigos e interessantes, como o Palacio Salvo e o Palacio Rinaldi. Continuando a caminhada, conhecemos a Puerta de la Ciudadela, construída em 1746 para servir como porta principal de entrada para quem chegava do porto. Vários prédios dessa parte da cidade, conhecida como Ciudad Vieja (Cidade Velha) compõem um circuito turístico recomendado aos visitantes. Seguimos por parte desse circuito e, no final do dia, decidimos ver o pôr-do-sol nas proximidades do porto. Na extremidade de um dos molhes que protege a sua entrada vimos o Buquebus, mais rápido barco de transporte que faz a travessia do Rio da Prata até Buenos Aires. Uma espécie de catamarã, chega a planar sobre a água e, com atrito muito reduzido, consegue atingir velocidades relativamente altas para uma embarcação de seu porte. Em Colonia del Sacramento tomaríamos um barco dessa mesma companhia de navegação para nossa travessia. Mas naquele momento ainda não estávamos preocupados com isso e tratamos de apreciar as cores do entardecer e as luzes da cidade que pouco a pouco desenhavam um novo perfil dessa nossa segunda grande capital do Mercosul.
Voltando ao albergue, encontramos uma alegre turma de gaúchos que estava na cidade para reforçar os conhecimentos na língua espanhola. Fomos convidados para comer melancia e aproveitamos a oportunidade para prepararmos a janta na cozinha do albergue. Mais tarde aproveitei para enviar e-mails contando um pouco a respeito daquilo que já havíamos vivido nos últimos dias.

Décimo primeiro dia (02/01/01 – terça) – Montevideo ao Acampamento da Ponte

Distância pedalada no dia: 87,73 km.
Distância total acumulada: 1217,36 km.
Tempo pedalado: 4 h 20 min 50 s.
Velocidade média: 20,2 km/h.
Velocidade máxima: 39,0 km/h.

Na saída de Montevideo, várias surpresas nos aguardavam.
Demoramos bastante para arrumar todo o material e, ao sair, percebi que o pneu traseiro estava furado, tendo esvaziado completamente durante a noite. No meio do albergue repetimos a “operação desmonte” que havíamos realizado no dia anterior (na entrada da cidade) e fomos procurar um talher, uma oficina de bicicletas. Na primeira que encontramos não faziam consertos e, no tempo que levamos para compreender isso, o pneu novamente estava completamente murcho. Novamente desmontei a roda e, desta vez verificando cuidadosamente o pneu, encontrei a causa de repetidos furos: um espinho se alojara firmemente e a cada novo conserto voltava a furar a câmara. Por via das dúvidas, além de remover o espinho, troquei também o pneu pelo reserva (que estava levando desde Nova Petrópolis). Voltamos a andar de uma loja de bicicletas para outra e nenhuma delas fazia serviços de mecânica. Jacson teve que comprar um banco (selim) novo, pois ao tentar levantar sua superpesada bicicleta acabou por estragar o antigo.
Com os problemas supostamente solucionados, começamos a sair da cidade. Para meu desespero, novamente vi meu pneu traseiro murchar completamente. Paramos em um posto de gasolina, desmontei mais uma vez a roda e, pasmem, consegui estourar mais uma câmara quando utilizava um compressor de ar inadequado para bicicletas!!! Solução: fui à procura de uma nova câmara. Para completar a cena que parecia ter saído de um filme “pastelão”, as lojas estavam fechadas para almoço e a consagrada siesta. Caminhei várias quadras para voltar a uma loja de grande porte (mais parecia um supermercado de peças para bicicletas) que estava aberta, mas demorei bastante tempo para ser atendido. Comprei duas novas câmaras e voltei correndo ao posto, procurando evitar um “motim” por parte de meus companheiros de viagem. Nesse dia, se alguém tentou testar minha paciência, parabéns! Conseguiu!!!
Às duas horas da tarde, finalmente, começávamos a sair de Montevideo. Por pouco não precisamos voltar, pois meu pai quase sofreu um acidente quando, ao cruzar trilhos de trem que cruzavam a estrada obliquamente, um carro com um bando de inconseqüentes cortou sua frente. Deixando a cidade para trás, seguíamos agora pela Ruta 1 em direção a Colonia del Sacramento, enfrentando “apenas” o forte calor e o vento contrário. A esse tipo de dificuldade pelo menos já estávamos nos acostumando...
As poucas horas das quais dispúnhamos para pedalar foram se esgotando rapidamente e nossa idéia inicial de pedalar até a localidade de Elcida Paulier não poderia ser concretizada porque a distância era demasiado grande. Em uma pequena vila paramos para obter informações e, pela primeira vez, fomos vistos com uma certa desconfiança pelos uruguaios. Nesse episódio, porém, tivemos alguma parcela de culpa pela forma de abordagem. Meu pai, com a melhor das intenções, perguntou se havia no local algum posto policial. Creio que foi mal interpretado, pois os desconfiados quase-amigos pensaram que estávamos evitando La Policia. Isso ficou mais do que evidente quando nos indicaram uma ponte como local de parada e, bem mais adiante, um local supostamente muito melhor! Na verdade, queriam nos ver longe dali!!! Com o sol já se aproximando do horizonte tratamos de pedalar e encontrar o tal local onde poderíamos acampar. Em uma ponte encontramos um casal e filhos tentando pescar. O riacho, entretanto, não passava de água parada e malcheirosa já utilizada por uma indústria de laticínios. Em pleno campo, foi o pior local de acampamento que encontramos até então. Nem água para banho havia e naquele dia não foi muito agradável dormir com o corpo castigado por um dia quente. As aventuras do dia terminaram com a constatação de que parte da ponte estava ruindo e que havíamos montado acampamento justamente debaixo da parte comprometida. Durante a noite sentíamos a ponte tremer com a passagem dos caminhões, esperando que no dia seguinte todos estivessem inteiros para poder contar a história!...

1 comment:

Renato said...

Olá Leonardo! Sou amigo do Poti. E, tenho acompanhado a sua jornada.
Parabéns!
Acho que para o serviço ficar + detalhado, tinha que colocar o lugar das paragens(fora a ponte, é claro!). Isso ajudaria no planejamento de outros ciclistas.
Abraços, e boa sorte!