Friday, August 31, 2012

Ilhabela: do Bonete ao Saco do Sombrio

Panorâmica da praia do Bonete
[Por favor clique nas imagens para ampliá-las]

Praia do Bonete, segundo dia de remada.
Após uma noite tranquila no camping dos fundos da casa do Seu Eugênio, desmontamos acampamento, tomamos café - torta de frutas, preparada pelo Ipe com frutas em conserva e massa de farinha por cima, na frigideira untada com manteiga - e recolhemos as tralhas para serem levadas à praia, onde haviam ficado os caiaques durante a noite.
Quando fui pagar o camping (R$ 50 para nós três), Seu Eugênio perguntou se eu conhecia umas frutinhas verdes. Não, eu não conhecia, ou ao menos não reconhecia. Segundo ele, eram azeitonas (mais conhecidas como olivas pelos espanhóis), que uma árvore bem próxima produzia em profusão. O único problema é que Seu Eugênio não sabia preparar a conserva e assim as azeitonas acabavam se estragando. Prometi para ele pesquisar a solução na internet e retornar com a resposta.

Seu Eugênio...
... e suas azeitonas, ou olivas.

Como precisaria de duas viagens para levar as tralhas à praia, aproveitei para fazer o registro de algumas cenas do Bonete, um local pacato onde a vida parece seguir em um ritmo saudavelmente mais lento.
Um local especialmente bonito atraiu a minha atenção, talvez não somente pela beleza estética, mas certamente singela. A Praça da Conversa Mole nada mais é do que uma área à sombra das árvores - aliás, que belas árvores! - onde há lugar para sentar e jogar conversa fora. Algo impensável numa grande metrópole, onde não há tempo (pela pressa), quase não há árvores e, o mais esquisito, não há os interlocutores com disponibilidade necessária para que a conversa mole ocorra...

Atualizando as notícias


Praça da Conversa Mole

Acho que para conhecer melhor o Bonete e aprender com sua gente seria preciso ficar por ali pelo menos por uma semana. Com certeza também há muitas trilhas, mirantes e paisagens para conhecer e deve ser muito interessante acompanhar a rotina dos pescadores. E, quando a frente de Sul chega, o mar deve se transformar um bocado...
O "nosso" mar estava calmo, quase sem ondulação, o ar também estava quase estagnado; o céu, nublado, deixava entrever algumas nesgas de céu azul por onde os raios solares conseguiam passar, tingindo as encostas. Tratamos de colocar os caiaques mais perto da água e aos poucos cada tralha foi encontrando seu lugar dentro dos barcos.

Preparativos para o segundo dia de remada

Na praia havia um grande monte de sacos de lixo acumulados; alguns pescadores chegaram, colocaram todos em uma grande canoa e ajudaram a posicioná-la para que facilmente varasse a arrebentação.


Mutirão de pescadores...
... no transporte do sacos de lixo...
... para fora da Praia do Bonete.

Quando estava tudo pronto mais uma vez fizemos um momento de preparação para a remada que estava por vir. Teríamos um longo trecho exposto e passaríamos pelo marco simbolicamente mais importante de toda a remada, a Ponta do Boi. Lá o swell do oceano não teria barreiras para atingir a costa inóspita e desprovida de abrigos... Depois de contornar várias pontas e retornar para águas abrigadas, teríamos opção de pernoitar em Castelhanos ou, se estivéssemos em condições, seguir mais adiante, até a Praia da Caveira.

A saída da Praia do Bonete foi bem tranquila, com poucas e pequenas ondas. As imagens mais significativas foram os borrifos de água e a espuma das ondas...

Passando pela arrebentação...
... na saída...
... da Praia do Bonete


Ultrapassada a fraca zona de surf, passamos pela Ponta das Enchovas e dobramos à esquerda, procurando acompanhar o contorno da costa em direção às duas pequenas praias logo adiante, as únicas praias que veríamos ao longo de todo o dia.

Passando pela Ponta das Enchovas


Na pequena Praia das Enchovas não chegamos a descer, apenas passamos em frente e por entre as pedras da Laje do Carvão. O swell estava pequeno, acredito que ainda menor do que na véspera.

Pedras na Laje do Carvão, em frente à Praia das Enchovas.


Em pouco tempo de remada chegávamos em Indaiatuba, onde resolvemos descer pelo canto esquerdo da praia. Passa-se por algumas pedras, águas bem tranquilas chega-se calmamente na areia; nessa praia também há um riacho que chega ao mar. O caseiro que tomava conta da propriedade foi receptivo e nos tratou com cortesia. A praia é muito bonita, basicamente uma faixa de areia com belas árvores e cercada por costões, também com vegetação exuberante.

Chegando em Indaiatuba

Indaiatuba


Indaiatuba

Após a parada em Indaiatuba, voltando a remar, passamos pela Ponta Grande e rumamos em direção a ilhotas de pedra, o Ilhote Codo e o Ilhote da Figueira. A passagem pelo meio das pedras exigia uma boa apreciação do intervalo da ondulação e bastante manobrabilidade; Ipe foi o primeiro a passar, com rapidez e tranquila eficiência. Quando Danilo passou, a coisa toda foi meio turbulenta e uma onda quase causou maiores estragos - olhando de onde eu me encontrava, parecia questão de "mais sorte do que juízo" (como diriam os mais antigos) e, avaliando a situação, decidi ser mais prudente e contornar o Ilhote Codo. Meu caiaque era com certeza o menos manobrável dos três, minha experiência nesse tipo de terreno bastante reduzida e o que eu menos queria era dar trabalho aos meus companheiros de jornada. Agora, após tudo terminado, tenho clareza para afirmar que, se tivesse tentado passar por entre aquelas pedras, essa teria sido a situação potencialmente mais perigosa de toda a viagem, então creio que agi com prudência e não me arrependo de não ter tentado.

Passando pela Ponta Grande

Ipe e Danilo passaram entre o Ilhote Codo e o Ilhote da Figueira

Deixando o Ilhote Codo para trás

Cruzamos em seguida o Saco do Diogo, seguindo em direção à ponta de mesmo nome. A nebulosidade foi diminuindo e o sol aparecia com mais frequência. Quase chegando na ponta, fizemos uma breve parada a pedido do Danilo e em seguida encontramos dois pinguins que pareciam em boas condições.

Cruzando o Saco do Diogo

Parada com a Ponta do Diogo à frente

Pinguins perto da Ponta do Diogo

Continuamos passando por costões e pontas menores; dessa vez eu estava em perfeitas condições e não sentia o menor sinal de enjoo; procurava remar mais perto da costa, mas Ipe me chamava para remar mais afastado com alguma frequência, o que me causou alguma estranheza (considerando que na véspera a orientação era para remarmos mais próximos da costa). As condições estavam absolutamente perfeitas para aquela travessia exposta, com pouco swell  e praticamente sem vento. Apenas nas proximidades da Ponta do Boi a superfície da água estava um pouco mexida, efeito da reflexão da ondulação pela costa. Foi ali também que remamos em maior profundidade - por volta de 50 metros pouco antes de alcançarmos a ponta.



Parada com vista para a Ponta do Boi


Na Ponta do Boi existe um farol, cuja luz branca, situada a 70 metros de altitude, permanece ligada em intervalos de dez segundos de duração e pode ser observada a até 22 milhas (pouco mais de 40 km) de distância.
Essa região da costa brasileira é conhecida pelos mergulhadores pelos muitos naufrágios, sendo o mais famoso o naufrágio do Príncipe de Astúrias. Foi um dos maiores naufrágios na costa brasileira, onde oficialmente morreram 477 pessoas:

"Alguns dizem que na realidade foram mais de 1000 mortos, pois haveriam refugiados alemães escondidos nos porões. O navio tinha capacidade para até 1300 passageiros. Fazia a rota Barcelona - Buenos Aires, com uma carga muito valiosa além das 40000 libras esterlinas de uma agência bancária de Buenos Aires, além de uma estátua de bronze do General San Martin, que seria doada ao governo argentino.
Durante a madrugada do dia 06/03/1916, por volta das 3 h da manhã, o navio estava envolto por um denso nevoeiro e forte tempestade, indo contra ondas de até 6 m de altura, fazendo com que a tripulação não avistasse o farol da Ponta do Boi. O navio a vapor espanhol, de 150 metros de comprimento e 17000 toneladas, fabricado dois anos antes, batera violentamente nos rochedos, rompendo o casco e sofrendo grandes avarias da proa até a meia-nau; em apenas 3 minutos as caldeiras explodiram. Pouco tempo depois do impacto o navio afundou, na Ponta da Pirabura. O número de mortos poderia ser maior se não houvesse o resgate feito pelos tripulantes do navio inglês "Vega", que passava próximo no momento do acidente.
Dizem os moradores locais que seus antigos familiares contam histórias que, ao clarear do dia na Baía de Castelhanos, havia dezenas de corpos espalhados pelas areias.
Há fortes correntes no local e diversos pedaços pontiagudos das ferragens."



Ponta do Boi

Passamos pela Ponta do Boi em condições plenamente favoráveis; até o sol chegou, e para ficar! Seguimos em direção a Pirabura, e com a mudança de rumo inclusive o swell ficou mais favorável.

Rumo à Ponta de Pirabura

Na Ponta da Pirabura mudamos radicalmente o curso dos caiaques para Sudoeste, praticamente invertendo o rumo que estávamos praticando. O objetivo era encontrar um local que permitisse a aportagem. Faríamos uma parada para descanso e recuperação.
Em águas bem abrigadas foi relativamente fácil encontrar pedras nas quais foi possível descer e arrastar os caiaques. O mais difícil foi manobrar caiaques plenamente carregados; se eram pesados para nós, para a água não passavam de joguetes - seria bem fácil perder o controle e ter um rombo no casco provocado pelas pedras. Foi um bom exercício de aportagem em pedras, em condições controladas e na boa companhia de amigos interessados em que tudo corresse bem. Ao desembarcar, Danilo infelizmente topou com ouriços do mar e inevitavelmente vários espinhos foram parar na sua perna.

Aportagem em pedras

O local onde estávamos era belíssimo: água limpa e tranquila, um curto e caótico trecho de transição litorânea formado por blocos rochosos de todos os tamanhos e logo em seguida vegetação exuberante, uma mata fechada que me fez pensar. Em caso de necessidade, sair por terra de um local como aquele poderia ser extremamente difícil. Evacuar uma pessoa ferida, então, passaria a ser tarefa praticamente impossível. Por outro lado, que alegria estar em um local de tão difícil acesso!!! Poucas formas de transporte poderiam se equiparar ao caiaque - com toda sua eficiência, permitia que pudéssemos desfrutar de uma viagem nesse mundo tão especial onde a água e a terra se encontram.


Um mundo especial, onde...
... a água e a terra se encontram...

Descansamos, curtimos o sol e a paisagem e nos alimentamos. Acabei com o estoque de bergamotas que ainda resistiram ao segundo dia dentro do caiaque. Chegada a hora de voltar para a água, a estratégia adotada seria flutuar os caiaques, impulsioná-los para longe das pedras e reembarcar na água.
A parte mais delicada era justamente a primeira, fazer flutuar o caiaque e evitar o impacto com as pedras. Ipe segurava de um lado e eu do outro, clipei meu cabo de resgate, desembaracei parte do cabo que pretendia levar meu pé a reboque e empurrei o caiaque para longe das pedras. Pulei na água, meio sem jeito e meio que arrastado pela inércia do caiaque carregado e nadei para me safar das pedras, reentrando no caiaque pelo método 'cowboy'. 

Rebocando o caiaque do Danilo


Em seguida foi a vez do caiaque do Danilo, que clipei com o cabo e reboquei. Danilo veio pela água ao seu caiaque e, enquanto Ipe também reembarcava no estilo 'cowboy', fizemos uma reentrada assistida:

Reembarque assistido

Dali seguimos diretamente para a Ponta da Piraçununga:


Ondulação

Northern Light Paddles

Um aspecto interessante é que nessa remada nós três estávamos usando remos groenlandeses de carbono. O meu havia sido presente do mestre Eiichi Ito durante o curso de construção de caiaques pelo método tradicional groenlandês, na Argentina. Gostei tanto do remo, da marca Northern Light Paddles, que desde então só tenho usado esse. Como remo reserva eu levava emprestado o remo Werner da Tiane.
Pouco antes de alcançar a Ponta da Piraçununga eu avistei mais um pinguim.

Pinguim

A partir da Piraçununga passamos a remar em novo rumo, para Noroeste aproximadamente, seguindo por águas cada vez mais abrigadas. Passaríamos por duas outras pontas, Caragoatá e da Chave, para então chegar ao Saco do Sombrio. A partir do Sombrio teríamos várias praias como opção de aportagem: Praia da Figueira, Praia Vermelha, Praia Mansa e, a principal, Praia dos Castelhanos.

Passando pela Ponta da Piraçununga


Parada estratégica na Ponta do Caragoatá



Ponta da Chave

Depois da Ponta da Chave mudamos mais uma vez de direção e, remando para Sudoeste, começamos a entrar no Saco do Sombrio.

Entrando no Saco do Sombrio

Subsede do Yacht Club de Ilhabela no Saco do Sombrio

No Saco do Sombrio passamos pela subsede do Yacht Club de Ilhabela, onde algumas lanchas estavam atracadas. Na região também passamos por barcos de pescadores. A ideia de seguirmos mais adiante foi abortada, Danilo estava um pouco cansado e com dores na lombar, então passamos a procurar um local que permitisse aportagem. No dia seguinte provavelmente aconteceria a passagem de uma frente fria fraca (segundo as informações passadas pela Tiane por telefone na véspera), mas estaríamos em águas bastante abrigadas e portanto não precisávamos nos preocupar em ganhar terreno. E, de acima de tudo, a segurança e o bem estar de qualquer um de nós sempre seria prioridade.



Ipe localizou uma espécie de rampa improvisada com pedaços de madeira que servia aos nossos propósitos. Seria possível e relativamente fácil puxar os caiaques para cima e ter acesso à terra. A encosta do morro era um pouco inclinada, mas algumas árvores garantiam suporte para as redes e provavelmente eu encontraria algum local onde pudesse armar minha barraca.

Parando no Saco do Sombrio

Local de acampamento no Saco do Sombrio

No local onde paramos havia algum lixo e restos de madeira. Tive a infelicidade de pisar em um prego, que atravessou o calçado e perfurou meu pé. Fiquei torcendo para o ambiente marinho não ser particularmente propício para o tétano...
O solo inclinado não era lá muito favorável para montar uma barraca, mas procurei me instalar da melhor maneira possível. Em um pequeno platô Ipe instalou a cozinha e prontamente começou a preparar o jantar: massa com brócolis, atum, champignon e queijo. Uma delícia!!!



Ilhas das Galhetas

Canoa

Saco do Sombrio

Janta ao anoitecer

Depois do jantar ainda ficamos conversando e observando o céu estrelado. Na barraca tratei de fazer o meu tema de casa diário: baixar fotos e vídeos no computador, procurar carregar um pouco a bateria da GoPro usando a conexão usb com o laptop, salvar e anotar os dados registrados pelo gps e escrever o diário de bordo.

Informações disponibilizadas pelo gps:

Distância remada: 30, 57 km;
Tempo remado: 6 h 2 min;
Velocidade média: 5,1 km/h;
Velocidade máxima: 10,2 km/h;
Tempo parado: 2 h 1 min;
Velocidade média geral: 3,8 km/h.

Distância remada acumulada: 52,0 km (em dois dias).

[Trajetos e legendas sobre imagem do Google Earth]

[Trajetos e legendas sobre imagem do Google Earth]

[Trajetos e legendas sobre imagem do Google Earth]

[Trajeto e legendas sobre imagem do Google Earth]

3 comments:

Grupo Osório de Canoagem said...

Que coisa linda, praias muito belas, parabens e obrigado por compartilhar.

Marcio

Maria Helena Gravina said...

Como sempre as fotos estão ótimas mas gostei especialmente dos textos, pois dão uma ideia muito boa de como foi a circunavegação da ilha!
Maria Helena

Luciano Duarte said...

Está cada vez mais cativante este relato, Esch! Parabéns!