Sunday, January 02, 2011

Remada de Ano Novo!!!

Estamos em Tapes, cidade da Costa Doce de pouco menos de vinte mil habitantes situada a 103 quilômetros de Porto Alegre. Já passa do meio dia, a temperatura está elevada e o sol forte às vezes se esconde rapidamente atrás dos pequenos cúmulos brancos indicando bom tempo que passam flutuando de Leste para Oeste. Na praia em frente ao Camping Fagundes a areia quente acomoda os caiaques carregados, prontos para a travessia. Tiane e eu pretendemos passar a virada do ano no Pontal de Santo Antônio, uma língua de areia que avança Lagoa dos Patos adentro e forma a Enseada de Tapes, que atravessaremos em instantes. Depois de remarmos oito quilômetros até o outro lado, seguiremos em direção ao Sul para encontrarmos um local calmo para acampamento, onde o ruído insano dos foguetes não possa ser ouvido.

Caiaques prontos para a saída em Tapes

Estando em Tapes e olhando para a direção geral Leste enxerga-se no horizonte - no outro lado do Saco de Tapes - uma extensa plantação de pínus que ocupa grande parte do Pontal de Santo Antônio. Um dos poucos pontos de referência são os grandes cômoros de areia praticamente em frente à cidade e, mais a Sudeste, a extremidade dessa enorme plantação de pínus, local conhecido como Ponta do Pinho. A partir dessa extremidade o pontal tem sua menor largura, com pouco mais de cem metros na parte mais estreita.

As legendas sobre a imagem mostram a posição aproximada de pontos de referência no Pontal de Santo Antônio

São duas e meia da tarde quando deslizamos os caiaques sobre a areia grossa da praia até a água. Entro no caiaque, fecho a saia de vedação sobre o aro do cockpit que impedirá a entrada de água das ondas e apanho o remo. Antes de sair, ligo a pequena filmadora que está na caixinha estanque montada no tripé sobre a carta topográfica. O caiaque está pesado e sinto-me um pouco tenso ao enfrentar as primeiras ondas dessa travessia de oito quilômetros.


[Por favor clique no vídeo para iniciá-lo, selecionando entre 240p e 720p HD de acordo com sua velocidade de conexão à internet]

À medida que avançamos vou me acostumando à ondulação, que vem basicamente de duas direções diferentes: a ondulação provocada pelo vento Leste que sopra no Saco de Tapes forma ondas vindas pela proa - são ondas facilmente transponíveis, pois não desequilibram o caiaque lateralmente - e a ondulação de fundo que vem do Sudeste, proveniente do grande corpo d'água da Lagoa dos Patos. Essa ondulação é desviada; quando chega na extemidade do Pontal de Santo Antônio, "faz a curva" e acessa o Saco de Tapes diagonalmente. Essas ondas são mais distanciadas entre si e vêm da bochecha de boreste (da direita, à frente) e são elas que provocam o balanço (movimento lateral capaz de capotar o caiaque). Também à medida que avançamos vamos diminuindo a distância da margem oposta e, consequentemente, diminuindo os efeitos da ondulação.
Quando chegamos ao outro lado, sentimos somente o vento relativamente forte, parcialmente protegidos pelo bosque de pínus. A água está calma e vamos diretamente para a praia, pois queremos caminhar nos arredores e Tiane precisa retirar a água acumulada no Quindim Precioso.


 Águas protegidas pelo Pontal de Santo Antônio

Caminhamos pela areia branca e fina, fotografamos a paisagem, tomamos água e comemos banana como lanche. Retornamos aos caiaques e continuamos a remada, agora em direção ao Sul e contando com a proteção do pontal. Apenas o vento lateral, abrandado, nos atinge.


Vamos remando perto de juncos, que vez por outra se tornam esparsos e deixam pequenas praias à vista. Em alguns bancos de areia os biguás aproveitam o sol e secam as penas, com as asas abertas. Essa é a tranquilidade que buscamos para a passagem de ano.


Mais adiante enxergo uma embarcação ancorada e, na margem, outra enfiada no meio dos juncos. Entre as árvores diviso algumas casas improvisadas de lona e um catavento. É o Porto dos Casais, um ponto de encontro de navegadores organizado pelo Sr. Willy e sua esposa Noeli. Ouço o ruído de várias pessoas, assim deixamos uma visita para outra oportunidade e tratamos de continuar nossa procura por um local sossegado para acampar.

Porto dos Casais

Continuamos remando para o Sul e olhando para a margem à esquerda. O bosque plantado de pínus tem grandes corredores no sentido Leste-Oeste - os aceiros - que servem para evitar a propagação de fogo em um eventual incêndio. Estamos quase chegando ao final da plantação e já enxergamos sua extremidade e o grande campo de dunas de areia que vem a seguir. Precisaremos decidir entre acampar na proteção da mata, acampar no campo de dunas (mais desprotegido do vento) ou seguir em frente e procurar local adequado bem mais longe.


Na proa, a Ponta do Pinho.

Ainda está cedo e temos bastante tempo, mais de duas horas até o sol descer no horizonte, mas queremos montar acampamento com calma, tomar banho de lagoa e preparar a janta. Bem no final da plantação, na Ponta do Pinho, vejo um pequeno canal no junco e entro para conferir. Parece ser um belo local, perto da água, abrigado do vento, com uma vista bonita e bem ao lado do extenso campo de dunas justamente na parte mais estreita do Pontal de Santo Antônio. Com tantos atrativos, nem percebo que existe um pequeno abrigo com paredes de tábuas e telhado de "brasilite". Pelas inscrições nas paredes, serve de refúgio temporário para pescadores e velejadores. Converso com a Tiane e decidimos acampar ali, pois provavelmente não teremos visitas nesse último dia do ano.

[Imagem capturada de vídeo]

A vista do local de acampamento

Os caiaques ainda carregados são transportados para perto do local de acampamento. Uso uma metade do remo reserva como pá para nivelar uma pequena área e com a ajuda da Tiane a areia plana recebe a barraca, que montamos em poucos minutos. Bem ao lado há dois caibros que servem de bancos e duas mesas improvisadas que servirão perfeitamente como "sala" e "cozinha". Alimentos, temperos, cumbucas, talheres, panelas e o fogareiro são colocados ali.
Subimos em um cômoro para ver os arredores. Estamos bem no limite entre a plantação de pínus e o campo de dunas que se estende para o Sul, justamente a parte mais estreita de todo o Pontal de Santo Antônio. Como estamos em um ponto elevado, podemos ver ambos os lados da lagoa: águas abertas e desprotegidas - por isso mesmo, cheias de ondas com "carneirinhos" - para o lado Leste e águas tranquilas e protegidas pelo pontal - as águas da Enseada de Tapes - para o Oeste.

Campo de dunas, o local mais estreito do Pontal de Santo Antônio.

Lagoa dos Patos, o "Mar de Dentro".

Do alto de cômoro avisto um ponto no horizonte e fico imaginando que deve ser um navio em deslocamento pelo "Mar de Dentro", como a Lagoa dos Patos é conhecida pelos pescadores. Depois de algum tempo, porém, percebo que o ponto permanece no mesmo lugar. Com o auxílio do zoom da máquina fotográfica, percebo que é sim um navio, mas que está naufragado naquela posição. Trata-se do navio oceanográfico Almirante Álvaro Alberto, que afundou devido a um incêndio a bordo no dia 16 de dezembro de 1992. Como estava bem na rota utilizada para navegação, foi rebocado para a posição em que se encontra hoje e recebeu um farolete na cor branca. Nessa região existem hoje três naufrágios: navio Almirante Álvaro Alberto, navio Rio Negro e rebocador Arquiteto.

Naufrágio do navio oceanográfico Almirante Álvaro Alberto ao longe

Acima, ampliação da imagem anterior.

Voltamos ao acampamento. Já é hora de tomar um bom banho de lagoa e aproveitar para buscar água. Tiane leva as duas panelas e eu levo o filtro; depois de várias bombeadas, as panelas estão cheias. Para conseguir tomar banho temos que caminhar bastante lagoa adentro, pois a profundidade aumenta muito lentamente. A água está quente, mas o vento acaba proporcionando sensação de frio quando saímos dela. Retornamos ao acampamento, pois está na hora de curtir o entardecer e começar a preparar a comida. Como em todo bom reveillon, lentilha não vai faltar. Teremos também arroz, milho, palmito e café com leite e panetone de sobremesa. Um banquete!!!

Acampamento


Tapes, a doze quilômetros de distância.

Companheiro de acampamento


Observamos o último entardecer do ano. Eu fotografo enquanto Tiane prepara a "cozinha" - a água para o arroz está aquecendo e a lentilha já está de molho...









Tchau, 2010! Bem-vindo, 2011!!!

Quando escurece já começamos a comer; a comida é simples mas está deliciosa! Jantamos com calma, vendo as estrelas aparecerem no meio das nuvens sopradas pelo vento, que continua intenso. Enxergamos as luzes de Tapes, que está a doze quilômetros daqui. Bem ao longe, mais outros dois clarões de cidades. Uma delas provavelmente deve ser Arambaré, pela localização. Por enquanto alguns foguetes podem ser vistos pipocando aqui e ali, mas não escutamos absolutamente nada. Observamos vários satélites cruzarem o céu estrelado enquanto lentamente o tempo vai passando; Tiane prefere deitar na barraca, de onde enxerga as luzes ao longe. Antes da virada os clarões de fogos se intensificam e podemos ver também alguns fogos de artifício coloridos bem ao longe; no clarão que achamos ser de Arambaré os fogos estão intensos. O melhor de tudo é que não ouvimos absolutamente nenhum ruído de explosão, apenas o vento passando pelas árvores, as ondas no outro lado do pontal (a duzentos metros de distância) e alguns sapos, pererecas e grilos se manifestando esporadicamente. Assim acontece nossa entrada em 2011.

Primeiros raios de sol de 2011

Acordei cedo e por volta das seis e meia já estou no cômoro vizinho para ver o sol nascer sobre a Lagoa dos Patos. O vento parece ter acalmado um pouco e continua soprando do Leste e as nuvens parecem um pouco mais densas do que as da véspera. Eventualmente poderemos sentir alguns pingos ao longo do dia.

Acampamento

Retorno ao acampamento e tomamos café apreciando a paisagem, as manchas de luz se deslocando ao longe e as nuvens tingidas pelo sol.



Após o café vamos dar uma caminhada e conhecer a margem do outro lado do Pontal de Santo Antônio. Atravessamos as dunas impressionados com a quantidade de pegadas diferentes na areia. Há também marcas de motocicleta - não faz muito que alguém passou por aqui. O vento é um escultor talentoso e deixa belos padrões para admirarmos.



Os aspectos negativos são a quantidade de lixo de todos os tipos trazido pela água e uma cerca, que atravessa o pontal de um lado a outro. Pelo que nos foi informado o pontal é uma área do governo - então teoricamente não teria uso privado -, embora a plantação de pínus e vestígios de criação de gado sejam indicativos da exploração da terra.


Feliz 2011!!!

Além das marcas de pegadas na areia e das esculturas do vento, admiramos também as ondas da lagoa, as aves passando no céu e uma grande quantidade de flores muito pequenas na vegetação que insiste em se desenvolver no ambiente hostil. Cercada pela areia, a pequena planta com suas minúsculas flores é uma verdadeira joia da natureza, mas podemos facilmente passar ao seu lado sem percebê-la ou mesmo pisar sobre ela se estivermos desatentos ou apressados. É preciso tempo e calma para a contemplação - tudo isso temos nesse momento.











Retornamos ao acampamento, pois é chegada a hora de desmontar e guardar tudo. Ao retirar o sobreteto da barraca encontramos uma rã. As tralhas vão ocupando seus lugares nos caiaques enquanto ao longe passa um veleiro seguindo para Tapes.







Quando já está quase tudo recolhido surge a Orca, com dois tripulantes e um cachorro. Faz a volta e vem atracar no junco, perto de onde chegamos com os caiaques na véspera. Um dos tripulantes conhece muito bem a região, assim aproveitamos a ocasião para aprender um pouco enquanto terminamos os preparativos para a remada. Transportamos os caiaques carregados para a água, checamos mais uma vez se não esquecemos nada (gostamos de deixar o lugar assim como o encontramos, ou mais limpo) e nos despedimos, passando pelos juncos e seguindo para o Norte.

 [Imagem capturada de vídeo]

 [Imagem capturada de vídeo]

Passamos novamente por biguás em bancos de areia


Ao abrigo do vento, vamos passando relativamente perto da margem. O Porto dos Casais fica para trás e a Ponta do Pinho já é uma pequena mancha no horizonte. Seguimos para os cômoros de areia, onde pretendemos parar.


Embarcação chegando

Chegamos aos cômoros um pouco antes de uma grande canoa, cheia de pessoas. O calor é intenso e o vento parece ter diminuído um pouco. Comemos bananas e tomamos água admirando belos bancos de areia paralelos. Caminho pela areia até o ponto mais alto de uma duna, onde há sombra e uma bela vista. Tiane se refresca tomando um banho.



[Visão panorâmica obtida pela composição de várias fotografias]

Desembarque



Depois do banho Tiane vem se juntar a mim para aproveitar a sombra e admirar a paisagem. Decidimos atravessar diretamente para Tapes, pois parece que o vento está mais calmo do que ontem. É preciso ter prudência, pois quando se está em uma margem protegida, como é o nosso caso, é muito fácil avaliar mal uma travessia, achando que as condições são fáceis. Depois de poucos quilômetros cessa a proteção da costa e percebe-se a ação do vento levantando ondas. Sabendo disso - mas avaliando as condições - resolvemos atravessar.


É para lá que vamos!

À medida em que vamos nos distanciando da costa as ondas vão ganhando corpo. O vento, no entanto, está bem mais fraco do que na véspera; há ondas mas não há "carneirinhos". Os caiaques se comportam bem, surfando as ondinhas que vêm da popa.

[Imagem capturada de vídeo]

[Imagem capturada de vídeo]

[Imagem capturada de vídeo]
Farolete

[Imagem capturada de vídeo]

[Por favor clique no vídeo para iniciá-lo, selecionando entre 240p e 720p HD de acordo com sua velocidade de conexão à internet]

Vídeo: retorno a Tapes.

Chegando nas proximidades da cidade, ligo a pequena câmera para tentar capturar uma imagem da remada; faço a volta para filmar o Quindim Precioso. A partir dali seguimos paralelamente à costa em direção ao Sul para retornarmos ao camping, encerrando a jornada.

Fim de remada!

Informações disponibilizadas pelo gps:

Em 31/12/10:

Distância remada: 11,90 km;
Tempo remado: 2 h 30 min;
Velocidade média: 4,7 km/h;
Velocidade máxima: 8,0 km/h;
Tempo parado: 46 min 32 s;
Velocidade média geral: 3,6 km/h.

Parada para acampamento em S 30 graus 44' 01,04" - W 51 graus 17' 50,7"

Em 01/01/11:

Distância remada: 16,08 km;
Tempo remado: 2 h 29 min;
Velocidade média: 6,5 km/h;
Velocidade máxima: 13,2 km/h;
Tempo parado: 37 min 9 s;
Velocidade média geral: 5,2 km/h.

Distância total remada: 27,98 km.


 [Trajeto e legendas sobre imagem do Google Earth]


[Trajeto e legendas sobre imagem do Google Earth]

Veja também a postagem da Tiane sobre essa remada acessando o blog "Se minha bici falasse" na listagem de links ao lado.

1 comment:

Jorge Luiz Padaratz said...

E aí Leonardo! Recebi a sua mensagem de ano novo contendo as coordenadas. Fui rapidamente para o GPS a fim de ver onde era. Muito legal a remada! Show de fotos e relato. Gostaria de saber uma coisa, se os pássaros que foram fotografados em um arbusto (aqueles com penacho) se você viu a cor deles? Pois é fiquei interessado pois adoro pássaros silvestres e me pareceu (pelo perfil) que se tratariam de cardeais argentinos, conhecidos por cardeias amarelos ou cientificamente por Gubernatrix cristata. Esta ave esta ameaçada de extinção e se existir um bando nesta área é porque devem ter sido introduzidos pelo IBAMA ou outra entidade de preservação. Segue o link sobre esta ave http://www.wikiaves.com.br/cardeal-amarelo
Um abraço e parabéns aos remadores.

Padaratz